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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A PEDRA LETREIRA

“Quem, no concelho de Góis, tomar a estrada nacional n.º 2, de Chaves a Faro, e ao km 290,85, na Portela do Vento, onde se forma o desvio para Castelo Branco (estrada n.º 112), meter pelo caminho carreteiro que das traseiras da Casa dos Cantoneiros segue, rumo a sudoeste, pelo viso do monte da Fonte Fria, não tem mais do que, à terceira barroca ou linha de água, cortar monte abaixo pela vertente voltada a noroeste para, andada uma centena de passos, avistar ao fundo, à esquerda do leito do talvegue, uma espécie de plataforma debruçada, a meia encosta, para o amplo anfiteatro de montanhas que se lhe abre em frente: é a Pedra Letreira.

Trata-se de um afloramento de xisto ante-câmbrico, de estratificação vertical correndo de Sudoeste a Noroeste, em cuja superfície, horizontalmente aplanada, há uma série de figuras gravadas e tidas, pela gente das imediações, por estranhos caracteres de enigmático letreiro, obra de mouros que teriam ali deixado apontamento dos seus legendários tesouros encantados ou das suas fabulosas riquezas escondidas por aqueles sítios.


Em frente à Pedra Letreira
há três minas em carreira:
uma de ouro, outra de prata
e outra de peste que mata!

É que não há tradição sem lenda, como não há ruína sem hera. Ela é como um penhor da sua antiguidade, por vezes tão remota que se lhe perde o sentido. Foi o que se deu com o nosso monumento.
No panorama circundante, não constitui a Pedra Letreira um documento que digamos único da presença do homem por aquelas paragens em tempos mais ou menos recuados.

Em frente, na linha do poente, lá estão as minas romanas da Escádia, em cujos nichos dos hastiais, abertos a 1,20m acima do solo e distanciados cerca de 2m uns dos outros, ainda se encontravam, quando há anos se procedeu ao desentulhamento das respectivas galerias, algumas lucernas…
Mais adiante, na mesma direcção, mas já dobrada a encosta, há o lugar dos Povorais com as suas minas antigas de que procedem dois picões de ferro, de época romana, depositados no Museu dos Serviços Geológicos de Portugal, em Lisboa…
Cara ao norte, no Alto das Cabeçadas, temos os poços romanos, de exploração mineira, conhecidos pelas Covas dos Ladrões…
E mais para além, vencida a serra da Folgosa e ultrapassado o Rabadão, não podemos deixar de referir as minas pré-históricas da Eira dos Mouros, na encosta da Devouga, ao Liboreiro, com materiais de feição eneolítica e demais períodos do Bronze.
Estes e outros vestígios do passado, ainda mal conhecidos, são indícios para já suficientemente reveladores de uma longa e activa permanência humana por aquelas redondezas, motivada ao que parece pela sua relativa abundância de minérios, o ouro e o estanho sobretudo. São como anéis desarticulados e dispersos de imaginária cadeia forjada, na bigorna dos séculos, por gerações atrás de gerações. Pobres restos materiais, aparentemente sem valor, que encerram no entanto a alma e a mentalidade dos povos que ali se sucederam e os deixaram, é através deles que teremos de refazer e articular de novo os elos da cadeia, se quisermos vir a ter um pálido vislumbre da sua trajectória pela penumbra dos milénios. Em tal sentido, não é a Pedra Letreira senão um de entre tantos. Procurando atribuir-lhe o lugar que lhe pertence, intentamos mais que nada preencher uma das muitas lacunas da Pré-história local.”






Limitámo-nos a transcrever e a mostrar um pouco do que poderá encontrar nesta preciosa obra editada em 1959, primeiro volume das “Memórias Arqueológicas do Concelho de Góis – A Pedra Letreira”, num excelente trabalho conjunto de João de Castro Nunes, A. Nunes Pereira e A. Melão Barros.
Composto e impresso na Tipografia de A Comarca de Arganil, é de fácil leitura e poderá encontrá-lo na Biblioteca da União, no Colmeal.

A. Domingos Santos

Publicada por Francisco Silva

upfc-colmeal-gois.blogspot.com/

FALECEU O ANTIGO PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE GÓIS


Faleceu hoje em Coimbra o antigo presidente da Câmara Municipal de Góis, José Girão Vitorino, com 62 anos de idade, vítima de doença prolongada.
José Girão Vitorino, foi Presidente da Câmara Municipal de Góis no período 2001-2009. Nasceu a 1 de Novembro de 1947, em Formoselha, Montemor-O-Novo, e era Filho de Joaquim Carlos Vitorino e de Cristina Pereira Girão.
Casado com Maria Elisa Guerra Santos, natural de Vila Nova do Foz Côa, exerceu a sua actividade profissional na Companhia Eléctrica da Beiras / EDP, em Lousã, Ourém e Góis.
Foi também presidente da Direcção da Casa do Povo de Góis, tendo participado em elencos directivos da Associação Educativa e Recreativa de Góis, Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Góis e Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Góis. Para além disso foi eleito vereador em vários mandatos da Câmara Municipal de Góis, alguns deles em permanência.

O seu corpo repousa em câmara ardente no quartel dos Bombeiros Voluntários de Góis, o seu funeral realiza-se amanhã, sexta-feira [29 de Janeiro], pelas 15h, para o cemitério de Góis.
A população de Cortecega aproveita para agradecer publicamente tudo o que fez pela nossa terra e apresentar as suas sentidas condolências à família enlutada.


in
http://www.rcarganil.com

tags: camara gois, gois

publicado por penedo às 19:03

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

.”VAMOS CA/ONTAR AS JANEIRAS E COMER O BOLO REI! "

Nota Importante:
O texto abaixo publicado está a concurso na blogagem de Janeiro http://www.aldeiadaminhavida.blogspot.com/. Assim, a todos os que gostaram poderão votar. Além da votação de 28 a 31 de Janeiro, a quantidade e qualidade de comentários também contam para a eleição do Melhor Texto. Não hesite, Comente!

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Foto do Rancho Folclórico de Cortecega

Na sequência da Blogagem de Janeiro no blog-aminhaldeia@sapo.pt, elaborei esta pequena história para contar como se cantava as Janeiras na minha Aldeia. Assim, neste contexto não podia deixar de publicar esta história no meu blog. espero que gostem.

Janeiras são uma tradição muito antiga que vai passando de geração em geração.
Na minha aldeia essa tradição manteve-se até há alguns anos atrás, mas em muitas aldeias de Portugal esta tradição está viva, felizmente!

Bem, vou contar como era no tempo em que vivia na aldeia onde nasci (Cortecega).
Existia um grupo folclórico do qual eu fazia parte e por altura dos Reis lá ia-mos nós pedir as Janeiras.
Na noite de Reis, formavam-se dois grupos de pessoas. Um grupo percorria as ruas da aldeia e o outro ia à povoação mais perto (neste caso a Cabreira) indo de casa em casa, cantando e tocando alguns instrumentos, como pandeireta, ferrinhos, tambor, concertina, desejando, assim, um bom ano aos seus vizinhos cantando quadras como estas.

Boas noites, meus senhores
Boas noites vimos dar
Vimos pedir as Janeiras
Se no-las quiserem dar
***
Aqui vimos, aqui vimos
Aqui vimos bem sabeis
Vimos dar as boas festas
E também cantar os Reis

Mas como a porta tarda em abrir-se

Levante-se daí Senhora
Do seu banco de cortiça
Venha-nos dar as janeiras
Ou de carne ou de chouriça
***
Viva lá o Senhor António
Raminho de bem-querer
Traga lá a chave da adega
Venha-nos dar de beber

De uma maneira geral as gentes da casa acediam, e então tinham direito a agradecimento:

As janeiras que nos deram
Deus será o pagador
Queira Deus que para o ano
Nos faça o mesmo favor

Mas também podia acontecer “não haver nada para ninguém”. Então…

Cantemos e recontemos
Tornemos a recontar
Esta barba de farelos
Não tem nada para nos dar

Terminada a canção numa casa, esperava-se que os donos nos dessem as janeiras (castanhas, nozes, maçãs, batatas, carne de porco chouriço, morcela, porque tinha sido altura das “matanças”, etc) . Dinheiro não se dava, mas caso alguém o fizesse era para ajudar a comprar o que faltava paro o almoço de dia de Reis.

No dia de Reis o povo juntava-se no largo da aldeia. Preparava-se a lenha que tinha estado a arder no largo desde a noite de Natal, onde eram colocadas as panelas de ferros onde se cozia a batatas, a carne, as chouriças, dadas na noite anterior. Preparava-se as couves que ainda de noite tínhamos sido (desviadas da horta do vizinho) e em festa todos, bebiam e cantavam. No caso de alguém da terra não ter dado nada aquando do peditório, nós íamos ao galinheiro e (desviava-mos uma galinha), quem pagava as favas era a raposa, pois tinha sido ela que tinha ido a capoeira. A pessoa era convidada para a festa e só tempos mais tarde lhe era dito quem foi à capoeira (era uma rizada).

Era uma confraternização que unia as pessoas e que hoje recordo com saudades. Muitas vezes são tema de conversa quando nos encontramos e revivemos o passado, principalmente no verão, altura de férias.

sábado, 26 de dezembro de 2009

"HISTÓRIA DE NATAL"



Eu, menino, sentado na calçada, sob um sol escaldante, observava a movimentação das pessoas em volta, e tentava compreender o que se estava a passar. O que é o Natal? Perguntava-me, em silêncio. Eu, menino, ouvira falar que aquele era o dia em que o Pai Natal, no seu trenó puxado por renas, cruzava os céus distribuindo brinquedos a todas as crianças. E por que então, eu, que passo a madrugada ao relento nunca vi o trenó voador? Onde estão os meus presentes? Perguntava-me. E eu, menino, imaginava que o Natal não deveria ser isso Talvez fosse um dia especial, em que as pessoas abraçassem seus familiares e fossem mais amigas umas das outras. Ou talvez fosse o dia da fraternidade e do perdão. Mas então por que eu, sentado na rua ao frio, não recebo sequer um sorriso? Perguntava-me, com tristeza. E porque é que a polícia trabalha no Natal? E eu, menino, entendia que não devia ser assim... Imaginava que talvez o Natal fosse um dia mágico porque as pessoas enchem as igrejas em busca de Deus. Mas por que, então, não saem de lá melhores do que entraram? Debatia-me, na ânsia de compreender essa ocasião diferente. Via risos, mas eram gargalhadas que escondiam tanta tristeza e ódio, tanta amargura e sofrimento... E eu, menino, mergulhado em tão profundas reflexões, vi aproximar-se um homem... Era um belo homem Não era gordo nem magro, nem alto nem baixo, nem branco, nem preto, nem pardo, nem amarelo ou vermelho. Era apenas um homem com olhos cor de ternura e um sorriso em forma de carinho que, numa voz em tom de carinho, saudou-me:
Olá, menino! Olá!... Respondi, meio tímido. E, com grande admiração, vi-o acomodar-se a meu lado, na calçada. Eu, menino, aceitei-o como amigo, num olhar. E atirei-lhe a pergunta que me inquietava e entristecia: Que é o Natal? Ele, sorrindo ainda mais, respondeu-me, sereno: É o dia do meu aniversário. Como assim? Perguntei, percebendo que ele estava sozinho. Por que não está em casa onde estão os seus familiares? E ele respondeu: Esta é a minha família, apontando para aquelas pessoas que andavam apressadas. E eu, menino, não compreendi. Você também faz parte da minha família... Acrescentou o menino, aumentando a confusão na sua cabeça. Não o conheço! Disse. É porque nunca te falaram de mim. Mas eu conheço-te. E amo-te... Tremi de emoção com aquelas palavras, na minha fragilidade de menino. Você deve estar muito triste, comentei. Porque está sozinho, justo no dia do próprio aniversário…Neste momento, estou contigo! Respondeu-me, com um sorriso. E conversamos...uma conversa de poucas palavras, muito silêncio, muitos olhares e um grande sentimento, naquela prece que fazia arder o coração e a própria alma. A noite chegou... E as primeiras estrelas surgiram no céu. E conversamos... Eu, menino, e ele. Ele me falava, eu o entendia. Eu o sentia. Eu o amava... Eu, menino: sou as cordas. Ele: o artista. E entre nós dois se fez a melodia!... E eu, menino, sorri... Quando a madrugada chegou e enquanto piscavam as luzes que iluminavam as casas, ele se ergueu e eu adivinhei que era a despedida. Eu suspirava, de alma renovada. Abracei-o pela cintura, e disse-lhe: Feliz aniversário! Ele ergueu-me no ar, com Seus braços fortes, tão fortes quanto a paz, e disse-me: Presenteou-me compartilhando este abraço com a minha família, que também é sua... Ame-os com respeito. Respeite-os com ternura, com carinho e amizade. E tenha um feliz Natal! E porque eu não o queria ver partir, saí correndo pela rua. Abandonei-o, levando-o para sempre no mais íntimo do meu coração... E saí em busca de braços que aceitassem os meus... E eu, menino, nunca mais o vi. Mas fiquei com a certeza de que Ele estará comigo, e não apenas nas noites de Natal... E eu, menino, sorri... pois agora eu sei que Ele é JESUS... E é por causa Dele que existe o Natal.

sábado, 12 de dezembro de 2009

"CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE - ISABELA"


A Historia de Natal anteriormente escrita, vai ser publicada na blogagem colectiva de Dezembro "O Natal na minha terra" no blog Http://www.aldeiadaminhavida.blogspot.com/
Visite este blog e vote no seu texto preferido.

Ao votar, está a contribuir para uma causa de CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE - ISABELA, visite o blog atrás mencionado e verá como o pode fazer.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O NATAL NA MINHA TERRA


A época de Natal era, e ainda é, para mim uma das épocas mais bonitas do ano.
Vivi numa aldeia até aos vinte e três anos e recordo com saudade os natais ali passados. Ainda hoje tenho na minha memória os montes cheios de geada (ou neve), o cheiro da terra molhada e, logo pela manhãzinha, cheirava a lenha queimada… que saudades!
Era, e é, um tempo de família.
Não foram tempos fáceis. Havia muita pobreza mas o Natal daquela época era vivido como a época em que nasceu Jesus e não naquilo que se tornou hoje, época de consumismo e de correrias para as lojas. No entanto, seja no passado ou nos tempos actuais o Natal é uma época muito especial.

Bem, lembro-me do natal na minha terra:
A preparação do Natal começava com alguma antecedência. Como não havia dinheiro para comprar as figuras do presépio, tudo era feito por mim e pelos meus irmãos.
Íamos ao campo apanhar o musgo, a cabana era feita de paus revestidos de palha de centeio. O São José, a Nossa Senhora, o Menino Jesus, a vaquinha e o burrito eram feitos com muito cuidado e normalmente eram representados por bonecos feitos de tecido e pintados com os nossos lápis da escola.
As casas eram feitas com pedras pequenas, pintadas de cal branca e decoradas com pedacinhos de paus, as ovelhas com lã que tiravamos das ovelhas que pastávamos ao longo do ano. Já a igreja era simbolizada por uma cruz feita com paus, o moleiro e os figurantes com boneco de trapos.
Os meus irmãos e o meu pai iam cortar um pinheiro para a árvore de natal que era enfeitada com tiras de tecido que eu e a minha mãe cortávamos de trapos velhos, fazíamos um grande novelo e depois andavamos a volta da árvore a enfeitá-la. Como os panos tinham várias cores ficava muito bonita, pendurávamos imagens de papel feitas por nós.

Na noite de natal, vestiamos uma roupa melhor (a roupa de domingo) e jantávamos as batatas com couves, ovos e bacalhau (este era só quando havia).
Depois, por volta da meia-noite, íamos à missa do galo. Mas como a igreja era na vila de Góis, que ficava a 4 Km, e íamos normalmente a pé, tínhamos de sair de casa uma hora mais cedo para chegar lá à meia noite, regressávamos e junto à lareira deixávamos os nossos sapatos para o menino Jesus vir deixar uma prendinha.

No dia de Natal acordávamos cedo. Apesar de pobres, o nosso menino Jesus deixava o que podia dentro das nossas botas de borracha (imaginem que nós deixávamos as botas de borracha porque tinham um cano mais alto e cabia uma prenda maior). Uma prenda simples como umas meias, uma camisola ou simplesmente um bocadinho de palha davam-nos toda a felicidade do mundo. Esta palha era vendida ao quilo, e era composta pelas aparas das bolachas de baunilha. A cada um calhava um bocadinho embrulhado num cartucho, feito de papel da lista telefónica. Não reclamávamos a prenda, mas a minha mãe logo me dizia: "Sabem, o Menino Jesus é pobre, este ano só te trouxe isto, para o ano talvez seja melhor!”

Depois da azáfama das prendas íamos assistir à missa, na igreja da vila para beijar o menino Jesus e agradecer-lhe as prendas recebidas.
O almoço deste dia era um bocadinho melhor: canja de galinha e arroz com galinha ou um bocado de carne de porco, arroz doce, letria pão-de-ló e filhós, sempre que possível, na companhia da família e amigos.
Há noite, juntavam-se todas as pessoas no largo que fica no meio da aldeia onde previamente tínhamos feito uma fogueira com troncos de pinheiro e oliveira que era acesa na véspera de Natal e durava até dia dos Reis. Ali se comia, cantava os cânticos de natal, dançava ao som das concertinas e percorríamos as ruas da aldeia visitando algumas casas… era uma alegria!

E era assim o Natal na minha terra. Que diferente é a Noite de Natal dos nossos filhos. O sapatinho já não vai para a lareira e as prendas são abundantes e algumas dadas antes do tempo. Enfim, são os sinais dos tempos...

Tenho duas filhas e desde pequenas que faço questão de lhes transmitir como era o meu natal quando eu era pequena e como ficava feliz com as minhas prendas.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

QUEIJO DE CABRA E O SEU ESTRELEQUE (soro) "7º. Capitulo"

Mais uma pequena historia que me lembro dos meus tempos de criança.
Naquela época havia grandes rebanhos de gado nesta aldeia. Todas as pessoas tinham as suas ovelhas ou cabras, ou para venderem os cabritos e os cordeiros, ou para consumo próprio. Era um dos poucos rendimentos existentes.


Bem, mas havia um rebanho que se destacava, pois chegaram a ser 150 cabras ou mais, era o do “tio Zé Alves” como a gente lhe chamava, homem de poucas falas. Lembro-me também que chegou a ter uma junta de bois e uma burra.
A junta de bois servia para lavrar os seus campos e dos restantes aldeões.
Voltando às cabras! O curral dos animais era perto da minha casa, então logo bem cedo, lá vinha a “tia Casilda” esposa do tio Zé Alves carregada de cantaras de latão para levar o leite que ordenhava das cabras para fazer os seus belos queijos.
Tirava-se o leite à cabra. O coalho deixado de molho de um dia para o outro era coado, para dentro do leite, fazendo então, o queijo de cabra.
O queijo é produzido pela coagulação do leite. O leite coalhado é a parte sólida resultante da coagulação do leite. A coagulação é obtida usando uma enzima designada coalho.


Nos campos nascia uma flor chamada cardo de flor branca (raro) e lilás. Lembro-me de ver esta flor no quintal da minha tia Hermínia e no da tia Cassilda. Esta flor possuía actividade coagulante. As flores eram colhidas no Verão, sendo guardadas em locais secos, para a sua utilização durante o Inverno.
Depois de mungido (ordenhado) das cabras, nos estábulos ou currais, o leite era coado por panos brancos e limpos, e depois juntavam-se uns centilitros de água na qual eram dissolvidas, umas gramas de coalho, na proporção do leite que tinham para coalhar.



Passado 2 a 3 horas está pronto para fazer o queijo numa bacia ou francela de madeira. É espremida a coalhada dentro de assinchos (folha de alumínio esburacada), pelos orifícios destes era tirado o soro e o ar. Depois de feito era adicionado sal a gosto para conservar, no dia seguinte era voltado de baixo para cima e levava a mesma quantidade de sal. Era depois colocado a enxugar nas queijeiras durante 15 dias, sendo voltados todos os dias.


Quando enxutos eram colocados em cestas com palha para secarem bem. Alguns depois de secos eram barrados com azeite e colorau (pimentão doce) e deitados dentro de um pote de barro em azeite, assim conservavam-se e ao longo do ano sempre que fosse necessário lá estavam eles com um sabor delicioso.
O liquido que saia pelos orifícios o soro, nós chamávamos estreleque ou almeçe e estávamos todos os dias a espera (digo estávamos porque na aldeia muitos gostavam) que a “Tia Casilda” acabasse de fazer o queijo para nós lá irmos buscar este precioso liquido, o qual se juntava pão ou broa e era muitas vezes uma das nossa refeições. Lembro-me chegar da escola e de o ir buscar, ou vir dos campos onde andava no cultivo, por vezes longe, de propósito para vir buscar o estreleque ou almeçe e assim fazer a refeição ou do almoço ou lanche.

Bem, mas como o gado saia para as serras era preciso haver sempre alguém atento, um pastor para tomar conta delas, mas por vezes o tio Zé Alves deixava-as nas encostas e aproveitava para cuidar do cultivo do campo.
Mas, para que isto fosse possível, os animais tinham de estar identificados, para isso existiam os chocalhos.


Os chocalhos são uma espécie de campainha que se põem ao pescoço de alguns animais, como ovelhas e cabras, para denunciar a sua presença. A colocação de chocalhos nos animais, permite ao pastor localizá-los mais facilmente, sendo muito útil para recuperar os animais perdidos ou aqueles que se costumam afastar.
A matéria-prima utilizada para a confecção é o bronze, liga de cobre e de estanho que é empiricamente preparada pelo artesão, que outras vezes recorre à fundição de velhas e inúteis campainhas trazidas por lavradores e pastores.
Previamente o artesão constrói moldes de madeira da peça que tenciona fabricar: chocalho ou campainha de qualquer dimensão e vária sonoridade, meias campainhas, guizos...
Mas lembro-me de ver o Tio “Zé Alves” a fazer os chocalhos para o seu gado, fazia-os de latões velhos e outros materiais.

A qualidade do queijo vem da época da ordenha, pois de Outubro a Março era a melhor e era o que se guardava para sustento da casa até à nova época.


O leite de Abril a Setembro é comido (bebido) mais fresco. Os queijos devido às flores das ervas e dos matos saiam mais arrendados e não eram tão saborosos. Quem sabe apreciar acha-lhe a diferença.

Bem e aqui fica mais uma pequena história do passado

terça-feira, 10 de novembro de 2009

OS TORTULHOS "6º. Capitulo"

TORTULHOS

Começou a época dos Tortulhos (cogumelos) como são chamados na minha terra. Na nossa região são apenas apanhados, os Tortulhos, cepas e Sanchas amarelas e as brancas).

É preciso ter muito cuidado ao apanhar, se não se conhecem é preferível deixar ficar do que trazer na dúvida para casa, pode ser fatal.


Se as chuvas aparecerem mais cedo, por exemplo em Setembro, logo nesse mês começam a aparecer os Tortulhos, mas a partir de Outubro, quando a humidade e as chuvas se fazem sentir com intensidade, vê-se parte da zona circundante a Cortecega de Tortulhos, Espalham pelos montes, são encontrados nos terrenos de cultivo nos olivais em terras secas.

Na minha terra natal (Cortecega), quando o tortulhos (cogumelo) se encontra ainda fechado chama-se maçaroco e são os preferidos, são mais saborosos e estão mais limpinhos por dentro. Há uns que aparecem no meio dos castanheiros e chamávamos-lhes os carqueja.



Os tortulhos também designação corrente extensiva aos cogumelos altos de chapéu, de cor creme e castanho com um anel no início do pé, também confeccionadas de várias formas.

Mal caiam as primeiras chuvas e lá íamos nós pelos montes à procura deste saboroso petisco.

Antigamente os tortulhos não eram cozinhados de tantas maneiras como são nos dias de hoje, assim deixo aqui a maneira como se fazia na minha aldeia:



A minha mãe costumava lavar os tortulhos e espremia-os;



Numa frigideira ponha um pouco de azeite, um dente de alho, juntava os tortulhos atrás referidos e polvilhava com farinha. Envolvia tudo, deixava cozinhar, acompanhava-mos com broa. Para mim e para os meus irmãos era um petisco só desta época do ano.



Outra maneira: Era fazer filhós de tortulhos: Deitava-se um pouco de farinha de trigo num alguidar, sal, os tortulhos depois de lavados e espremidos, amassavam-se bem. Depois eram fritos em azeite ou óleo bem quente em pequenas colheradas.



Outra maneira: Era abrir bem os tortulhos, juntar umas pedrinhas de sal e assa-los nas brasas da lareira. Depois de assados eram temperados com um bocadito de azeite. Hoje em dia são cozinhados de várias maneiras. Ainda ontem falei com a minha cunhada ao telefone que medisse que tinham apanhado muitos junto a sua casa e estava a estufa-los, ou seja:

Num tacho faz-se em refogado com cebola, alho, louro, tomate (ou polpa de tomate) e azeite, deixa-se refogar um pouco e depois junta-se os tortulhos, deixa-se cozinhar até estarem tenrinhos. Acompanha com arroz ou batata tudo depende do gosto de cada um.



Mas também pode ser cozinhado de vária maneiras, deixo aqui uma receita tirada da internet em receitasdoabrasivo.blogs.sapo.pt., porque já fiz e é muito saboroso, embora a receita diga que se faz com míscaros eu fiz com tortulhos.

Arroz de Tortulhos.

Lavar e cortar os tortulhos ou míscaros às tiras: 400 gramas de míscaros. Fazer um refogado com 1 cebola média e 3 dentes de alho picados e 3 colheres de sopa de azeite virgem. Neste salteei os míscaros. Tempere com sal e pimenta preta e junte 400 gramas de arroz, 1 litro de água a ferver e 1 raminho de salsa picada.

Mude este preparado para um tabuleiro e leve a cozer em forno previamente aquecido até quase desaparecer o líquido. Retire o arroz do forno, polvilhe com bastante Queijo parmesão ralado, envolva tudo e serva.


Tortulhos (cogumelos) silvestres estão a tornar-se cada vez mais importantes na nossa dieta pelas características nutricionais e farmacológicas. A alta proteína e baixo teor de gordura/energia encontrada nos cogumelos silvestres comestíveis, relatado em muitos trabalhos, faz destes excelentes alimentos em dietas de baixas calorias. Relativamente ao potencial farmacológico, os cogumelos apresentam propriedades tais como anti-inflamatório entre outros.

domingo, 8 de novembro de 2009

A APANHA DA AZEITONA " Capitulo 5

Estamos no mês de Novembro, mês do início da apanha da azeitona. Antigamente havia muitas oliveiras, muitas, mesmo!

Normalmente as pessoas falavam umas às outras para irem apanhar a azeitona, um dia iam para uma família no dia seguinte para outra até a apanha terminar.

Também ia-mos vender o dia, ou seja, trabalhar para outras pessoas a ganhar dinheiro.

Mas nem sempre era possível se juntarem grandes ranchos de pessoas e assim cada casa ia com a sua própria família apanhar a sua própria azeitona.

Lembro-me de começar bem pequenina, bem cedo logo pela manhã, ia-mos apanhar a azeitona. Reuniam-se homens e mulheres abastecidos dos respectivos apetrechos indispensáveis à safra: escadas; cambos ou cambãos (pau com gancho para apanhar os frutos); sacos;


Chegava-mos , montávamos as escadas de madeira e subia-mos até a ponta da oliveira. Com um sarrão, a cintura ou os cestos de verga apanhava-mos a azeitona uma a uma.

Depois da oliveira estar toda limpa tínhamos que colher as que estavam no meio das ervas. Não era fácil, pois como a colheita é no mês de Novembro e Dezembro e por vezes início de Janeiro, o tempo está muito frio e as mãos gelavam, ficavam engadanhadas como se dizia antigamente. Então eu dizia mãe tenho as mãos engadanhadas, ela respondia assopra ar quente com a boca e mete-as um bocadito debaixo dos braços. Confesso que não era fácil.

Anos mais tarde já eram espalhados debaixo das oliveiras uns panais, (panos que se estendem junto às oliveiras onde caem as azeitonas). Estes eram grandes serapilheiras ou bocados de tecidos velhos cozidos uns aos outros pelas pessoas. Tinham como fim, quando azeitona cai-se aquando da apanha ,em cima do panal, era mais fácil de colher.

No entanto era um tempo alegre, Ouvia-se as pessoas cantar as desgarradas em cima das oliveiras, por vezes em Cortecega ouviam-se as pessoas nas encostas de Carcavelos ou Carvalhal Miúdo.


À entrada desta rua

Logo mesmo à entrada

Há uma oliveirinha nova

Que ainda não foi abanada


Apanhemos a azeitona

Que a comem os pardais

Comem uma, comem duas

Comem três, não comem mais.


Azeitona miudinha

O rouxinol a namora

Pega nela no bico

Bate a asa vai-se embora.


A tua oliveira é grande

Mas a azeitona é miudinha,

Não penses que me enganas

Pois a minha é mais graudinha.


Mais graúda é a tua

Mas de qualidade menor,

Quando o meu azeite chegar

Terá muito melhor sabor.


"Verde foi meu nascimento,

Mas de luto me vesti;

E, para dar a luz ao mundo,

Mil tormentos padeci.


Como demorava alguns dias para apanhar a azeitona toda, era utilizado um método que era o seguinte:

No final do dia despejava-se a azeitona para um panal e era escolhida, ou seja, retirada a folhas e o lixo que tinha. Depois era colocada na tulha, uma camada de azeitona, uma camada de sal, assim sucessivamente até terminar a apanha.


Posteriormente era comunicado aos lagareiros que trabalhavam no lagar que existia em Góis, que a azeitona estava pronta e ensacada para levar, como havia poucos lagares por vezes esperava-se alguns dias para as viram buscar. Passavam com uma camioneta e levavam as de mais pessoas.

Ao chegar ao lagar por vezes tinham ainda de esperar um dia. Para cada um conhecer o seu saco de azeitona metia-se um papel, um fio de outra cor qualquer sinal, servia desde que não fossem misturadas pois cada um queria o seu azeite.


No dia da moagem do azeite, os proprietários da azeitona tinham de ficar no lagar a ajudar os lagareiros. Quando a azeitona não chegava para um moinho a azeitona era pesada e o proprietário trazia os litros do azeite, conforme os quilos de azeitona que tivesse levado. Normalmente tínhamos azeite para todo o ano! Havia anos em que tinhamos mais. Outros anos haviam menos. Depende, conforme a azeitona que fosse, porque as oliveiras nem sempre carregavam todos os anos.


A azeitona era despejada para o pio depois começava a moagem, Dentro do pio existiam a Galga, onde rodavam duas imensas rodas de pedra, as mós, que pisavam a azeitona até ficar tudo feito numa massa preta.


Quando a massa da azeitona estava em condições era colocada em seiras (uma espécie de capacho redondo, em tecido de sisal, algumas, já na era do plástico, entrelaçadas por cordão de fibra sintética), e colocadas umas sobre as outras, até atingir a altura de um homem (1,80m +/-) em ccima da vagoneta, nos seus próprios carris por onde circulava em direcção às prensas.


A vagoneta tinha uma torneira, por onde saía a água russa com o azeite, que depois era encaminhada para umas grandes tinas de metal, "as tarefas".

Esta máquina, munida de fortes rodas laterais puxadas por fortes correias, comprimia o ar que iria fazer pressão na base das prensas, que, com o respectivo êmbolo, levantava as vagonetas com os seiras e a massa negra da azeitona, comprimindo-as contra o tecto metálico da prensa, para espremer o líquido, aquela água russa, que também transportava o azeite.

Nesta operação podem ser utilizados entre quarenta a cinquenta «capachos», alternando com outras tantas camadas de azeitona, cada camada correspondendo, aproximadamente, a dez quilos de pasta de azeitona.

O líquido assim obtido corre da prensa para as pias ou talhas de pedra (designadas, antigamente, na Beira Litoral, por «tarefas»), tomando, a partir daí, o nome de «águas russas». A substância permanece nas pias entre três a quatro horas para efectuar-se a decantação, ou seja, para que o azeite venha ao de cima, enquanto as impurezas ou «almofeira» é escoada pelo «ladrão», uma abertura no fundo da pia, que a leva para um outro depósito, que não se encontra à vista. As impurezas ou subproduto escoado e depositado no «ladrão» são utilizados em várias aplicações: rações para animais, óleos, sabões, etc.


Nestas tinas depositavam-se a água e o azeite, com água quente, permanentemente, a correr para dentro delas. Esses depósitos possuíam uma torneira na parte inferior, por onde ia sendo retirada a água à medida que o azeite se ia purificando e aparecia, dourado, na superfície da água.

As tarefas possuíam outra torneira na parte superior, ligada aos tubos que conduziam à separadora. Quando o azeite já estava decantado, vazava-se água suficiente, para que o azeite se, encontrasse sempre à superfície e chegasse ao orifício dessa torneira, para sair para a separadora no percurso da purificação final.


A fornalha, espaço onde se acendia e mantinha permanentemente uma forte fogueira, situava-se na parte inferior da caldeira metálica em que a água era aquecida. A água entrava fria, vinda do rio, e saía a ferver para as máquinas e para as diversas tarefas que o pessoal tinha que desempenhar com a ajuda dos proprietários da azeitona.

Existia a separadora que servia para quando o azeite já estava quase liberto da água e das maiores impurezas, era levado por tubos para a separadora, que lhe dava o retoque final. Separava definitivamente a água e as impurezas do azeite.


O azeite, depois de ter sido passado pela separadora, era colocado nestes potes nos quais era transportado e entregue na casa do proprietário da azeitona.


Este processo era muito demorado. Por vezes as pessoas ficavam lá um dia e uma noite. Então para matar a fome, as pessoas levavam batatas. O Lagareiro sabia aproveitar muito bem os meios que tinha ao seu dispor. Os seus afazeres não lhe permitiam confeccionar outros alimentos. Assim, colocava as batatas e o bacalhau na fornalha e bastava dispensar-lhe um pouco de atenção, sem perturbar o seu trabalho, enquanto as máquinas lhe impunham desembaraço, no espaço e no tempo.

Conseguia ver confeccionada a sua refeição e dos restantes, quase sem se preocupar. Bastava-lhe colocar lá os alimentos, dar-lhe uma mexedela, sempre que tivesse que abastecer de lenha na fornalha e esperar que as brasas fizessem o resto.


Assim, se repetem, no desfiar dos anos, ritos e tarefas, risos e confraternização, nascidos de um tempo que não se apaga na memória das gentes. Todavia, se do presente pouco há a dizer, do passado não. Por isso se lembra aqui algumas das tradições de outros tempos das quais restam ainda alguns rituais que teimam em sobreviver.


Mas os tempos mudaram, e hoje estes lagares não são permitidos por lei. Hoje, mesmo que os actuais proprietários quisessem manter este Lagar a funcionar, isso não seria possível, poisas múltiplas exigências da União Europeia não o permitem.


Enfim!
São circunstâncias do tempo.

A azeitona segue as fases de um fruto normal, quer dizer:

A árvore floresce, nos meses de Maio e Junho.

Dessa flor nascem as azeitonas, minúsculas bagas verdes, que vão crescendo com o tempo, durante cinco/seis meses.

Nesse período a azeitona amadurece e toma a cor preta.

A MINHA ALDEIA

" Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver. "
Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos"