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sábado, 30 de janeiro de 2010

O ADEUS DO CONCELHO DE GOIS AO AMIGO GIRÃO

Funeral realizou-se ontem:
O adeus de Góis ao amigo Girão. Das figuras públicas ao mais simples munícipe, foram largas centenas de pessoas que se despediram do ex-presidente, que todos viam como homem bom.
Os populares não se cansam de elogiar o homem que, dizem, estava sempre disponível para ajudar. Entre aquele que foi até há alguns meses o presidente da Câmara de Góis, Girão Vitorino, e aqueles com quem se cruzava diariamente na rua, não havia diferenças. Era sobretudo «um amigo», disse ontem um dos muitos munícipes presentes no último adeus ao ex-presidente da Câmara de Góis. A doença – um carcinoma pulmonar detectado há dois anos – foi mais forte e Girão Vitorino não resistiu. Faleceu quinta-feira e ontem foi a enterrar, no cemitério de Góis, depois de uma missa de corpo presente na igreja matriz à qual assistiram largas centenas de pessoas.
Da personalidade do homem que foi presidente da Câmara de Góis, o seu povo, aquele a quem serviu durante nove anos, destaca a humildade e simpatia. «Era uma pessoa exemplar», comentava Fernando Barata, no decorrer do funeral do seu antigo presidente, lembrando o tempo em que conheceu Girão Vitorino, na altura em que este começou a trabalhar em Góis por conta da EDP. Conceição Custódio, também habitante de Góis, vai mais longe e afirma mesmo que «toda a gente gostava dele, mesmo quem não era da sua cor política».
De facto, diferenças políticas foi o que não se notou existir no funeral do ex-presidente. De uma ponta à outra do distrito, praticamente todos os autarcas fizeram questão de marcar presença no último adeus ao antigo colega. Porque, na verdade, Girão Vitorino foi isso mesmo: um companheiro de profissão. De Oliveira do Hospital a Tábua, passando por Soure, Penacova, Miranda do Corvo, Lousã, Penela ou Pampilhosa da Serra, entre muitos outros presidentes de Câmara, todos estiveram lá, nas cerimónias fúnebres, assim como o governador civil, o presidente da Federação Distrital do PS e muitos outros responsáveis a nível distrital.
O secretário de Estado Paulo Campos representou o Governo, mas acabaria por estar em dupla condição. «Venho também como homem da região, que está reconhecido pelo trabalho feito pelo Girão. Toda a sua vida foi um lutador e nesta região os lutadores são precisos», afirmou Paulo Campos, prestando a «homenagem» e «reconhecimento» ao antigo presidente da Câmara de Góis.
Lutou por Góis,
lutou contra a doença
A simpatia que todos apontam a Girão Vitorino estende-se a Espanha. O alcaide de Oroso, vila geminada com Góis, deslocou-se de propósito para o adeus àquele que diz ter sido «um amigo». O relacionamento com Girão Vitorino começou com o processo de geminação, mas foi muito além disso. «Era mesmo amizade», recordou Manuel Miras Franquilha, afirmando mesmo que desde o momento que o conheceu o achou uma pessoa «muito humana» e «amigo dos seus amigos».
Girão Vitorino iniciou a sua vida autárquica em 1977, como vereador e acabaria por assumir a presidência da Câmara de Góis em 2000, com a saída de José Cabeças para a ARS. Manteve esse cargo até 2009, e foi mesmo com alguma dificuldade que o terminou, devido à doença. Diz quem com ele privou mais de perto nesta fase mais difícil da sua vida que ele foi um lutador. Victor Baptista foi um deles. Falando no homem «simples, de trato fácil, mas inteligente e estratega», o presidente da Federação Distrital do PS reconheceu também que «estava em profundo sofrimento». «A natureza roubou cedo Girão Vitorino», lamentou Victor Baptista, recordando o dia de segunda-feira passada, em que esteve com ele no hospital e ele «ainda estava consciente» e com vontade de «regressar por um dia a Góis». «O concelho perdeu um grande homem, o PS perdeu um dos grandes no distrito e eu perdi um amigo», disse, com emoção, o presidente da distrital.
Lurdes Castanheira, que acabaria por encabeçar uma candidatura socialista em virtude da doença de Girão Vitorino, recorda os longos anos de amizade entre os dois e tudo aquilo que aprendeu com o antigo autarca. «Foi a pessoa que mais me ajudou a avançar com uma candidatura», reconheceu, considerando ser «um privilégio suceder a um autarca como Girão Vitorino». Qualidades? «A extrema humildade, carinho, dedicação, sentido de filantropia e grande disponibilidade para ajudar», sintetizou a autarca.
«Foi sempre um lutador convicto, nunca baixou os braços e foi um autarca exemplar», reconheceu, por sua vez, o governador civil, Henrique Fernandes
Vozes
Estava sempre disponível. Alguma coisa que nós pedíssemos ele ajudava no que fosse preciso. O Sr. Girão Vitorino lidava bem com toda a gente.”Fátima Neves Habitante de Góis
Góis perdeu um grande defensor das causas do concelho que, não sendo seu natural era seu de adopção. Eu perco um grande amigo.” Helena Moniz Vereadora no último mandado de Girão Vitorino
Girão Vitorino era uma pessoa muito humana e amigo dos seus amigos. Desde o momento em que o conheci que me brindou com a sua amizade” Manuel Miras Franquilha Presidente da Câmara de Oroso, Galiza, Espanha

Conheci-o no ano de 81, quando vim para Góis trabalhar. Foi uma pessoa com quem tive a oportunidade e o grato privilégio de conviver e aprender.”
Lurdes Castanheira
Presidente da Câmara de Góis
in Diário de Coimbra, 30/01/2010

tags: camara gois, góis
Texto retirado do Blog- penedos de Gois

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A PEDRA LETREIRA

“Quem, no concelho de Góis, tomar a estrada nacional n.º 2, de Chaves a Faro, e ao km 290,85, na Portela do Vento, onde se forma o desvio para Castelo Branco (estrada n.º 112), meter pelo caminho carreteiro que das traseiras da Casa dos Cantoneiros segue, rumo a sudoeste, pelo viso do monte da Fonte Fria, não tem mais do que, à terceira barroca ou linha de água, cortar monte abaixo pela vertente voltada a noroeste para, andada uma centena de passos, avistar ao fundo, à esquerda do leito do talvegue, uma espécie de plataforma debruçada, a meia encosta, para o amplo anfiteatro de montanhas que se lhe abre em frente: é a Pedra Letreira.

Trata-se de um afloramento de xisto ante-câmbrico, de estratificação vertical correndo de Sudoeste a Noroeste, em cuja superfície, horizontalmente aplanada, há uma série de figuras gravadas e tidas, pela gente das imediações, por estranhos caracteres de enigmático letreiro, obra de mouros que teriam ali deixado apontamento dos seus legendários tesouros encantados ou das suas fabulosas riquezas escondidas por aqueles sítios.


Em frente à Pedra Letreira
há três minas em carreira:
uma de ouro, outra de prata
e outra de peste que mata!

É que não há tradição sem lenda, como não há ruína sem hera. Ela é como um penhor da sua antiguidade, por vezes tão remota que se lhe perde o sentido. Foi o que se deu com o nosso monumento.
No panorama circundante, não constitui a Pedra Letreira um documento que digamos único da presença do homem por aquelas paragens em tempos mais ou menos recuados.

Em frente, na linha do poente, lá estão as minas romanas da Escádia, em cujos nichos dos hastiais, abertos a 1,20m acima do solo e distanciados cerca de 2m uns dos outros, ainda se encontravam, quando há anos se procedeu ao desentulhamento das respectivas galerias, algumas lucernas…
Mais adiante, na mesma direcção, mas já dobrada a encosta, há o lugar dos Povorais com as suas minas antigas de que procedem dois picões de ferro, de época romana, depositados no Museu dos Serviços Geológicos de Portugal, em Lisboa…
Cara ao norte, no Alto das Cabeçadas, temos os poços romanos, de exploração mineira, conhecidos pelas Covas dos Ladrões…
E mais para além, vencida a serra da Folgosa e ultrapassado o Rabadão, não podemos deixar de referir as minas pré-históricas da Eira dos Mouros, na encosta da Devouga, ao Liboreiro, com materiais de feição eneolítica e demais períodos do Bronze.
Estes e outros vestígios do passado, ainda mal conhecidos, são indícios para já suficientemente reveladores de uma longa e activa permanência humana por aquelas redondezas, motivada ao que parece pela sua relativa abundância de minérios, o ouro e o estanho sobretudo. São como anéis desarticulados e dispersos de imaginária cadeia forjada, na bigorna dos séculos, por gerações atrás de gerações. Pobres restos materiais, aparentemente sem valor, que encerram no entanto a alma e a mentalidade dos povos que ali se sucederam e os deixaram, é através deles que teremos de refazer e articular de novo os elos da cadeia, se quisermos vir a ter um pálido vislumbre da sua trajectória pela penumbra dos milénios. Em tal sentido, não é a Pedra Letreira senão um de entre tantos. Procurando atribuir-lhe o lugar que lhe pertence, intentamos mais que nada preencher uma das muitas lacunas da Pré-história local.”






Limitámo-nos a transcrever e a mostrar um pouco do que poderá encontrar nesta preciosa obra editada em 1959, primeiro volume das “Memórias Arqueológicas do Concelho de Góis – A Pedra Letreira”, num excelente trabalho conjunto de João de Castro Nunes, A. Nunes Pereira e A. Melão Barros.
Composto e impresso na Tipografia de A Comarca de Arganil, é de fácil leitura e poderá encontrá-lo na Biblioteca da União, no Colmeal.

A. Domingos Santos

Publicada por Francisco Silva

upfc-colmeal-gois.blogspot.com/

FALECEU O ANTIGO PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE GÓIS


Faleceu hoje em Coimbra o antigo presidente da Câmara Municipal de Góis, José Girão Vitorino, com 62 anos de idade, vítima de doença prolongada.
José Girão Vitorino, foi Presidente da Câmara Municipal de Góis no período 2001-2009. Nasceu a 1 de Novembro de 1947, em Formoselha, Montemor-O-Novo, e era Filho de Joaquim Carlos Vitorino e de Cristina Pereira Girão.
Casado com Maria Elisa Guerra Santos, natural de Vila Nova do Foz Côa, exerceu a sua actividade profissional na Companhia Eléctrica da Beiras / EDP, em Lousã, Ourém e Góis.
Foi também presidente da Direcção da Casa do Povo de Góis, tendo participado em elencos directivos da Associação Educativa e Recreativa de Góis, Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Góis e Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Góis. Para além disso foi eleito vereador em vários mandatos da Câmara Municipal de Góis, alguns deles em permanência.

O seu corpo repousa em câmara ardente no quartel dos Bombeiros Voluntários de Góis, o seu funeral realiza-se amanhã, sexta-feira [29 de Janeiro], pelas 15h, para o cemitério de Góis.
A população de Cortecega aproveita para agradecer publicamente tudo o que fez pela nossa terra e apresentar as suas sentidas condolências à família enlutada.


in
http://www.rcarganil.com

tags: camara gois, gois

publicado por penedo às 19:03

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

.”VAMOS CA/ONTAR AS JANEIRAS E COMER O BOLO REI! "

Nota Importante:
O texto abaixo publicado está a concurso na blogagem de Janeiro http://www.aldeiadaminhavida.blogspot.com/. Assim, a todos os que gostaram poderão votar. Além da votação de 28 a 31 de Janeiro, a quantidade e qualidade de comentários também contam para a eleição do Melhor Texto. Não hesite, Comente!

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Foto do Rancho Folclórico de Cortecega

Na sequência da Blogagem de Janeiro no blog-aminhaldeia@sapo.pt, elaborei esta pequena história para contar como se cantava as Janeiras na minha Aldeia. Assim, neste contexto não podia deixar de publicar esta história no meu blog. espero que gostem.

Janeiras são uma tradição muito antiga que vai passando de geração em geração.
Na minha aldeia essa tradição manteve-se até há alguns anos atrás, mas em muitas aldeias de Portugal esta tradição está viva, felizmente!

Bem, vou contar como era no tempo em que vivia na aldeia onde nasci (Cortecega).
Existia um grupo folclórico do qual eu fazia parte e por altura dos Reis lá ia-mos nós pedir as Janeiras.
Na noite de Reis, formavam-se dois grupos de pessoas. Um grupo percorria as ruas da aldeia e o outro ia à povoação mais perto (neste caso a Cabreira) indo de casa em casa, cantando e tocando alguns instrumentos, como pandeireta, ferrinhos, tambor, concertina, desejando, assim, um bom ano aos seus vizinhos cantando quadras como estas.

Boas noites, meus senhores
Boas noites vimos dar
Vimos pedir as Janeiras
Se no-las quiserem dar
***
Aqui vimos, aqui vimos
Aqui vimos bem sabeis
Vimos dar as boas festas
E também cantar os Reis

Mas como a porta tarda em abrir-se

Levante-se daí Senhora
Do seu banco de cortiça
Venha-nos dar as janeiras
Ou de carne ou de chouriça
***
Viva lá o Senhor António
Raminho de bem-querer
Traga lá a chave da adega
Venha-nos dar de beber

De uma maneira geral as gentes da casa acediam, e então tinham direito a agradecimento:

As janeiras que nos deram
Deus será o pagador
Queira Deus que para o ano
Nos faça o mesmo favor

Mas também podia acontecer “não haver nada para ninguém”. Então…

Cantemos e recontemos
Tornemos a recontar
Esta barba de farelos
Não tem nada para nos dar

Terminada a canção numa casa, esperava-se que os donos nos dessem as janeiras (castanhas, nozes, maçãs, batatas, carne de porco chouriço, morcela, porque tinha sido altura das “matanças”, etc) . Dinheiro não se dava, mas caso alguém o fizesse era para ajudar a comprar o que faltava paro o almoço de dia de Reis.

No dia de Reis o povo juntava-se no largo da aldeia. Preparava-se a lenha que tinha estado a arder no largo desde a noite de Natal, onde eram colocadas as panelas de ferros onde se cozia a batatas, a carne, as chouriças, dadas na noite anterior. Preparava-se as couves que ainda de noite tínhamos sido (desviadas da horta do vizinho) e em festa todos, bebiam e cantavam. No caso de alguém da terra não ter dado nada aquando do peditório, nós íamos ao galinheiro e (desviava-mos uma galinha), quem pagava as favas era a raposa, pois tinha sido ela que tinha ido a capoeira. A pessoa era convidada para a festa e só tempos mais tarde lhe era dito quem foi à capoeira (era uma rizada).

Era uma confraternização que unia as pessoas e que hoje recordo com saudades. Muitas vezes são tema de conversa quando nos encontramos e revivemos o passado, principalmente no verão, altura de férias.

sábado, 26 de dezembro de 2009

"HISTÓRIA DE NATAL"



Eu, menino, sentado na calçada, sob um sol escaldante, observava a movimentação das pessoas em volta, e tentava compreender o que se estava a passar. O que é o Natal? Perguntava-me, em silêncio. Eu, menino, ouvira falar que aquele era o dia em que o Pai Natal, no seu trenó puxado por renas, cruzava os céus distribuindo brinquedos a todas as crianças. E por que então, eu, que passo a madrugada ao relento nunca vi o trenó voador? Onde estão os meus presentes? Perguntava-me. E eu, menino, imaginava que o Natal não deveria ser isso Talvez fosse um dia especial, em que as pessoas abraçassem seus familiares e fossem mais amigas umas das outras. Ou talvez fosse o dia da fraternidade e do perdão. Mas então por que eu, sentado na rua ao frio, não recebo sequer um sorriso? Perguntava-me, com tristeza. E porque é que a polícia trabalha no Natal? E eu, menino, entendia que não devia ser assim... Imaginava que talvez o Natal fosse um dia mágico porque as pessoas enchem as igrejas em busca de Deus. Mas por que, então, não saem de lá melhores do que entraram? Debatia-me, na ânsia de compreender essa ocasião diferente. Via risos, mas eram gargalhadas que escondiam tanta tristeza e ódio, tanta amargura e sofrimento... E eu, menino, mergulhado em tão profundas reflexões, vi aproximar-se um homem... Era um belo homem Não era gordo nem magro, nem alto nem baixo, nem branco, nem preto, nem pardo, nem amarelo ou vermelho. Era apenas um homem com olhos cor de ternura e um sorriso em forma de carinho que, numa voz em tom de carinho, saudou-me:
Olá, menino! Olá!... Respondi, meio tímido. E, com grande admiração, vi-o acomodar-se a meu lado, na calçada. Eu, menino, aceitei-o como amigo, num olhar. E atirei-lhe a pergunta que me inquietava e entristecia: Que é o Natal? Ele, sorrindo ainda mais, respondeu-me, sereno: É o dia do meu aniversário. Como assim? Perguntei, percebendo que ele estava sozinho. Por que não está em casa onde estão os seus familiares? E ele respondeu: Esta é a minha família, apontando para aquelas pessoas que andavam apressadas. E eu, menino, não compreendi. Você também faz parte da minha família... Acrescentou o menino, aumentando a confusão na sua cabeça. Não o conheço! Disse. É porque nunca te falaram de mim. Mas eu conheço-te. E amo-te... Tremi de emoção com aquelas palavras, na minha fragilidade de menino. Você deve estar muito triste, comentei. Porque está sozinho, justo no dia do próprio aniversário…Neste momento, estou contigo! Respondeu-me, com um sorriso. E conversamos...uma conversa de poucas palavras, muito silêncio, muitos olhares e um grande sentimento, naquela prece que fazia arder o coração e a própria alma. A noite chegou... E as primeiras estrelas surgiram no céu. E conversamos... Eu, menino, e ele. Ele me falava, eu o entendia. Eu o sentia. Eu o amava... Eu, menino: sou as cordas. Ele: o artista. E entre nós dois se fez a melodia!... E eu, menino, sorri... Quando a madrugada chegou e enquanto piscavam as luzes que iluminavam as casas, ele se ergueu e eu adivinhei que era a despedida. Eu suspirava, de alma renovada. Abracei-o pela cintura, e disse-lhe: Feliz aniversário! Ele ergueu-me no ar, com Seus braços fortes, tão fortes quanto a paz, e disse-me: Presenteou-me compartilhando este abraço com a minha família, que também é sua... Ame-os com respeito. Respeite-os com ternura, com carinho e amizade. E tenha um feliz Natal! E porque eu não o queria ver partir, saí correndo pela rua. Abandonei-o, levando-o para sempre no mais íntimo do meu coração... E saí em busca de braços que aceitassem os meus... E eu, menino, nunca mais o vi. Mas fiquei com a certeza de que Ele estará comigo, e não apenas nas noites de Natal... E eu, menino, sorri... pois agora eu sei que Ele é JESUS... E é por causa Dele que existe o Natal.

sábado, 12 de dezembro de 2009

"CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE - ISABELA"


A Historia de Natal anteriormente escrita, vai ser publicada na blogagem colectiva de Dezembro "O Natal na minha terra" no blog Http://www.aldeiadaminhavida.blogspot.com/
Visite este blog e vote no seu texto preferido.

Ao votar, está a contribuir para uma causa de CAMPANHA DE SOLIDARIEDADE - ISABELA, visite o blog atrás mencionado e verá como o pode fazer.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O NATAL NA MINHA TERRA


A época de Natal era, e ainda é, para mim uma das épocas mais bonitas do ano.
Vivi numa aldeia até aos vinte e três anos e recordo com saudade os natais ali passados. Ainda hoje tenho na minha memória os montes cheios de geada (ou neve), o cheiro da terra molhada e, logo pela manhãzinha, cheirava a lenha queimada… que saudades!
Era, e é, um tempo de família.
Não foram tempos fáceis. Havia muita pobreza mas o Natal daquela época era vivido como a época em que nasceu Jesus e não naquilo que se tornou hoje, época de consumismo e de correrias para as lojas. No entanto, seja no passado ou nos tempos actuais o Natal é uma época muito especial.

Bem, lembro-me do natal na minha terra:
A preparação do Natal começava com alguma antecedência. Como não havia dinheiro para comprar as figuras do presépio, tudo era feito por mim e pelos meus irmãos.
Íamos ao campo apanhar o musgo, a cabana era feita de paus revestidos de palha de centeio. O São José, a Nossa Senhora, o Menino Jesus, a vaquinha e o burrito eram feitos com muito cuidado e normalmente eram representados por bonecos feitos de tecido e pintados com os nossos lápis da escola.
As casas eram feitas com pedras pequenas, pintadas de cal branca e decoradas com pedacinhos de paus, as ovelhas com lã que tiravamos das ovelhas que pastávamos ao longo do ano. Já a igreja era simbolizada por uma cruz feita com paus, o moleiro e os figurantes com boneco de trapos.
Os meus irmãos e o meu pai iam cortar um pinheiro para a árvore de natal que era enfeitada com tiras de tecido que eu e a minha mãe cortávamos de trapos velhos, fazíamos um grande novelo e depois andavamos a volta da árvore a enfeitá-la. Como os panos tinham várias cores ficava muito bonita, pendurávamos imagens de papel feitas por nós.

Na noite de natal, vestiamos uma roupa melhor (a roupa de domingo) e jantávamos as batatas com couves, ovos e bacalhau (este era só quando havia).
Depois, por volta da meia-noite, íamos à missa do galo. Mas como a igreja era na vila de Góis, que ficava a 4 Km, e íamos normalmente a pé, tínhamos de sair de casa uma hora mais cedo para chegar lá à meia noite, regressávamos e junto à lareira deixávamos os nossos sapatos para o menino Jesus vir deixar uma prendinha.

No dia de Natal acordávamos cedo. Apesar de pobres, o nosso menino Jesus deixava o que podia dentro das nossas botas de borracha (imaginem que nós deixávamos as botas de borracha porque tinham um cano mais alto e cabia uma prenda maior). Uma prenda simples como umas meias, uma camisola ou simplesmente um bocadinho de palha davam-nos toda a felicidade do mundo. Esta palha era vendida ao quilo, e era composta pelas aparas das bolachas de baunilha. A cada um calhava um bocadinho embrulhado num cartucho, feito de papel da lista telefónica. Não reclamávamos a prenda, mas a minha mãe logo me dizia: "Sabem, o Menino Jesus é pobre, este ano só te trouxe isto, para o ano talvez seja melhor!”

Depois da azáfama das prendas íamos assistir à missa, na igreja da vila para beijar o menino Jesus e agradecer-lhe as prendas recebidas.
O almoço deste dia era um bocadinho melhor: canja de galinha e arroz com galinha ou um bocado de carne de porco, arroz doce, letria pão-de-ló e filhós, sempre que possível, na companhia da família e amigos.
Há noite, juntavam-se todas as pessoas no largo que fica no meio da aldeia onde previamente tínhamos feito uma fogueira com troncos de pinheiro e oliveira que era acesa na véspera de Natal e durava até dia dos Reis. Ali se comia, cantava os cânticos de natal, dançava ao som das concertinas e percorríamos as ruas da aldeia visitando algumas casas… era uma alegria!

E era assim o Natal na minha terra. Que diferente é a Noite de Natal dos nossos filhos. O sapatinho já não vai para a lareira e as prendas são abundantes e algumas dadas antes do tempo. Enfim, são os sinais dos tempos...

Tenho duas filhas e desde pequenas que faço questão de lhes transmitir como era o meu natal quando eu era pequena e como ficava feliz com as minhas prendas.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

QUEIJO DE CABRA E O SEU ESTRELEQUE (soro) "7º. Capitulo"

Mais uma pequena historia que me lembro dos meus tempos de criança.
Naquela época havia grandes rebanhos de gado nesta aldeia. Todas as pessoas tinham as suas ovelhas ou cabras, ou para venderem os cabritos e os cordeiros, ou para consumo próprio. Era um dos poucos rendimentos existentes.


Bem, mas havia um rebanho que se destacava, pois chegaram a ser 150 cabras ou mais, era o do “tio Zé Alves” como a gente lhe chamava, homem de poucas falas. Lembro-me também que chegou a ter uma junta de bois e uma burra.
A junta de bois servia para lavrar os seus campos e dos restantes aldeões.
Voltando às cabras! O curral dos animais era perto da minha casa, então logo bem cedo, lá vinha a “tia Casilda” esposa do tio Zé Alves carregada de cantaras de latão para levar o leite que ordenhava das cabras para fazer os seus belos queijos.
Tirava-se o leite à cabra. O coalho deixado de molho de um dia para o outro era coado, para dentro do leite, fazendo então, o queijo de cabra.
O queijo é produzido pela coagulação do leite. O leite coalhado é a parte sólida resultante da coagulação do leite. A coagulação é obtida usando uma enzima designada coalho.


Nos campos nascia uma flor chamada cardo de flor branca (raro) e lilás. Lembro-me de ver esta flor no quintal da minha tia Hermínia e no da tia Cassilda. Esta flor possuía actividade coagulante. As flores eram colhidas no Verão, sendo guardadas em locais secos, para a sua utilização durante o Inverno.
Depois de mungido (ordenhado) das cabras, nos estábulos ou currais, o leite era coado por panos brancos e limpos, e depois juntavam-se uns centilitros de água na qual eram dissolvidas, umas gramas de coalho, na proporção do leite que tinham para coalhar.



Passado 2 a 3 horas está pronto para fazer o queijo numa bacia ou francela de madeira. É espremida a coalhada dentro de assinchos (folha de alumínio esburacada), pelos orifícios destes era tirado o soro e o ar. Depois de feito era adicionado sal a gosto para conservar, no dia seguinte era voltado de baixo para cima e levava a mesma quantidade de sal. Era depois colocado a enxugar nas queijeiras durante 15 dias, sendo voltados todos os dias.


Quando enxutos eram colocados em cestas com palha para secarem bem. Alguns depois de secos eram barrados com azeite e colorau (pimentão doce) e deitados dentro de um pote de barro em azeite, assim conservavam-se e ao longo do ano sempre que fosse necessário lá estavam eles com um sabor delicioso.
O liquido que saia pelos orifícios o soro, nós chamávamos estreleque ou almeçe e estávamos todos os dias a espera (digo estávamos porque na aldeia muitos gostavam) que a “Tia Casilda” acabasse de fazer o queijo para nós lá irmos buscar este precioso liquido, o qual se juntava pão ou broa e era muitas vezes uma das nossa refeições. Lembro-me chegar da escola e de o ir buscar, ou vir dos campos onde andava no cultivo, por vezes longe, de propósito para vir buscar o estreleque ou almeçe e assim fazer a refeição ou do almoço ou lanche.

Bem, mas como o gado saia para as serras era preciso haver sempre alguém atento, um pastor para tomar conta delas, mas por vezes o tio Zé Alves deixava-as nas encostas e aproveitava para cuidar do cultivo do campo.
Mas, para que isto fosse possível, os animais tinham de estar identificados, para isso existiam os chocalhos.


Os chocalhos são uma espécie de campainha que se põem ao pescoço de alguns animais, como ovelhas e cabras, para denunciar a sua presença. A colocação de chocalhos nos animais, permite ao pastor localizá-los mais facilmente, sendo muito útil para recuperar os animais perdidos ou aqueles que se costumam afastar.
A matéria-prima utilizada para a confecção é o bronze, liga de cobre e de estanho que é empiricamente preparada pelo artesão, que outras vezes recorre à fundição de velhas e inúteis campainhas trazidas por lavradores e pastores.
Previamente o artesão constrói moldes de madeira da peça que tenciona fabricar: chocalho ou campainha de qualquer dimensão e vária sonoridade, meias campainhas, guizos...
Mas lembro-me de ver o Tio “Zé Alves” a fazer os chocalhos para o seu gado, fazia-os de latões velhos e outros materiais.

A qualidade do queijo vem da época da ordenha, pois de Outubro a Março era a melhor e era o que se guardava para sustento da casa até à nova época.


O leite de Abril a Setembro é comido (bebido) mais fresco. Os queijos devido às flores das ervas e dos matos saiam mais arrendados e não eram tão saborosos. Quem sabe apreciar acha-lhe a diferença.

Bem e aqui fica mais uma pequena história do passado

terça-feira, 10 de novembro de 2009

OS TORTULHOS "6º. Capitulo"

TORTULHOS

Começou a época dos Tortulhos (cogumelos) como são chamados na minha terra. Na nossa região são apenas apanhados, os Tortulhos, cepas e Sanchas amarelas e as brancas).

É preciso ter muito cuidado ao apanhar, se não se conhecem é preferível deixar ficar do que trazer na dúvida para casa, pode ser fatal.


Se as chuvas aparecerem mais cedo, por exemplo em Setembro, logo nesse mês começam a aparecer os Tortulhos, mas a partir de Outubro, quando a humidade e as chuvas se fazem sentir com intensidade, vê-se parte da zona circundante a Cortecega de Tortulhos, Espalham pelos montes, são encontrados nos terrenos de cultivo nos olivais em terras secas.

Na minha terra natal (Cortecega), quando o tortulhos (cogumelo) se encontra ainda fechado chama-se maçaroco e são os preferidos, são mais saborosos e estão mais limpinhos por dentro. Há uns que aparecem no meio dos castanheiros e chamávamos-lhes os carqueja.



Os tortulhos também designação corrente extensiva aos cogumelos altos de chapéu, de cor creme e castanho com um anel no início do pé, também confeccionadas de várias formas.

Mal caiam as primeiras chuvas e lá íamos nós pelos montes à procura deste saboroso petisco.

Antigamente os tortulhos não eram cozinhados de tantas maneiras como são nos dias de hoje, assim deixo aqui a maneira como se fazia na minha aldeia:



A minha mãe costumava lavar os tortulhos e espremia-os;



Numa frigideira ponha um pouco de azeite, um dente de alho, juntava os tortulhos atrás referidos e polvilhava com farinha. Envolvia tudo, deixava cozinhar, acompanhava-mos com broa. Para mim e para os meus irmãos era um petisco só desta época do ano.



Outra maneira: Era fazer filhós de tortulhos: Deitava-se um pouco de farinha de trigo num alguidar, sal, os tortulhos depois de lavados e espremidos, amassavam-se bem. Depois eram fritos em azeite ou óleo bem quente em pequenas colheradas.



Outra maneira: Era abrir bem os tortulhos, juntar umas pedrinhas de sal e assa-los nas brasas da lareira. Depois de assados eram temperados com um bocadito de azeite. Hoje em dia são cozinhados de várias maneiras. Ainda ontem falei com a minha cunhada ao telefone que medisse que tinham apanhado muitos junto a sua casa e estava a estufa-los, ou seja:

Num tacho faz-se em refogado com cebola, alho, louro, tomate (ou polpa de tomate) e azeite, deixa-se refogar um pouco e depois junta-se os tortulhos, deixa-se cozinhar até estarem tenrinhos. Acompanha com arroz ou batata tudo depende do gosto de cada um.



Mas também pode ser cozinhado de vária maneiras, deixo aqui uma receita tirada da internet em receitasdoabrasivo.blogs.sapo.pt., porque já fiz e é muito saboroso, embora a receita diga que se faz com míscaros eu fiz com tortulhos.

Arroz de Tortulhos.

Lavar e cortar os tortulhos ou míscaros às tiras: 400 gramas de míscaros. Fazer um refogado com 1 cebola média e 3 dentes de alho picados e 3 colheres de sopa de azeite virgem. Neste salteei os míscaros. Tempere com sal e pimenta preta e junte 400 gramas de arroz, 1 litro de água a ferver e 1 raminho de salsa picada.

Mude este preparado para um tabuleiro e leve a cozer em forno previamente aquecido até quase desaparecer o líquido. Retire o arroz do forno, polvilhe com bastante Queijo parmesão ralado, envolva tudo e serva.


Tortulhos (cogumelos) silvestres estão a tornar-se cada vez mais importantes na nossa dieta pelas características nutricionais e farmacológicas. A alta proteína e baixo teor de gordura/energia encontrada nos cogumelos silvestres comestíveis, relatado em muitos trabalhos, faz destes excelentes alimentos em dietas de baixas calorias. Relativamente ao potencial farmacológico, os cogumelos apresentam propriedades tais como anti-inflamatório entre outros.

A MINHA ALDEIA

" Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver. "
Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos"