terça-feira, 10 de Novembro de 2009

TORTULHOS 6 Capítulo

TORTULHOS

Começou a época dos Tortulhos (cogumelos) como são chamados na minha terra. Na nossa região são apenas apanhados, os Tortulhos, cepas e Sanchas amarelas e as brancas).

É preciso ter muito cuidado ao apanhar, se não se conhecem é preferível deixar ficar do que trazer na dúvida para casa, pode ser fatal.


Se as chuvas aparecerem mais cedo, por exemplo em Setembro, logo nesse mês começam a aparecer os Tortulhos, mas a partir de Outubro, quando a humidade e as chuvas se fazem sentir com intensidade, vê-se parte da zona circundante a Cortecega de Tortulhos, Espalham pelos montes, são encontrados nos terrenos de cultivo nos olivais em terras secas.

Na minha terra natal (Cortecega), quando o tortulhos (cogumelo) se encontra ainda fechado chama-se maçaroco e são os preferidos, são mais saborosos e estão mais limpinhos por dentro. Há uns que aparecem no meio dos castanheiros e chamávamos-lhes os carqueja.



Os tortulhos também designação corrente extensiva aos cogumelos altos de chapéu, de cor creme e castanho com um anel no início do pé, também confeccionadas de várias formas.

Mal caiam as primeiras chuvas e lá íamos nós pelos montes à procura deste saboroso petisco.

Antigamente os tortulhos não eram cozinhados de tantas maneiras como são nos dias de hoje, assim deixo aqui a maneira como se fazia na minha aldeia:



A minha mãe costumava lavar os tortulhos e espremia-os;



Numa frigideira ponha um pouco de azeite, um dente de alho, juntava os tortulhos atrás referidos e polvilhava com farinha. Envolvia tudo, deixava cozinhar, acompanhava-mos com broa. Para mim e para os meus irmãos era um petisco só desta época do ano.



Outra maneira: Era fazer filhós de tortulhos: Deitava-se um pouco de farinha de trigo num alguidar, sal, os tortulhos depois de lavados e espremidos, amassavam-se bem. Depois eram fritos em azeite ou óleo bem quente em pequenas colheradas.



Outra maneira: Era abrir bem os tortulhos, juntar umas pedrinhas de sal e assa-los nas brasas da lareira. Depois de assados eram temperados com um bocadito de azeite. Hoje em dia são cozinhados de várias maneiras. Ainda ontem falei com a minha cunhada ao telefone que medisse que tinham apanhado muitos junto a sua casa e estava a estufa-los, ou seja:

Num tacho faz-se em refogado com cebola, alho, louro, tomate (ou polpa de tomate) e azeite, deixa-se refogar um pouco e depois junta-se os tortulhos, deixa-se cozinhar até estarem tenrinhos. Acompanha com arroz ou batata tudo depende do gosto de cada um.



Mas também pode ser cozinhado de vária maneiras, deixo aqui uma receita tirada da internet em receitasdoabrasivo.blogs.sapo.pt., porque já fiz e é muito saboroso, embora a receita diga que se faz com míscaros eu fiz com tortulhos.

Arroz de Tortulhos.

Lavar e cortar os tortulhos ou míscaros às tiras: 400 gramas de míscaros. Fazer um refogado com 1 cebola média e 3 dentes de alho picados e 3 colheres de sopa de azeite virgem. Neste salteei os míscaros. Tempere com sal e pimenta preta e junte 400 gramas de arroz, 1 litro de água a ferver e 1 raminho de salsa picada.

Mude este preparado para um tabuleiro e leve a cozer em forno previamente aquecido até quase desaparecer o líquido. Retire o arroz do forno, polvilhe com bastante Queijo parmesão ralado, envolva tudo e serva.


Tortulhos (cogumelos) silvestres estão a tornar-se cada vez mais importantes na nossa dieta pelas características nutricionais e farmacológicas. A alta proteína e baixo teor de gordura/energia encontrada nos cogumelos silvestres comestíveis, relatado em muitos trabalhos, faz destes excelentes alimentos em dietas de baixas calorias. Relativamente ao potencial farmacológico, os cogumelos apresentam propriedades tais como anti-inflamatório entre outros.

domingo, 8 de Novembro de 2009

A APANHA DA AZEITONA " Capitulo 5

Estamos no mês de Novembro, mês do início da apanha da azeitona. Antigamente havia muitas oliveiras, muitas, mesmo!

Normalmente as pessoas falavam umas às outras para irem apanhar a azeitona, um dia iam para uma família no dia seguinte para outra até a apanha terminar.

Também ia-mos vender o dia, ou seja, trabalhar para outras pessoas a ganhar dinheiro.

Mas nem sempre era possível se juntarem grandes ranchos de pessoas e assim cada casa ia com a sua própria família apanhar a sua própria azeitona.

Lembro-me de começar bem pequenina, bem cedo logo pela manhã, ia-mos apanhar a azeitona. Reuniam-se homens e mulheres abastecidos dos respectivos apetrechos indispensáveis à safra: escadas; cambos ou cambãos (pau com gancho para apanhar os frutos); sacos;


Chegava-mos , montávamos as escadas de madeira e subia-mos até a ponta da oliveira. Com um sarrão, a cintura ou os cestos de verga apanhava-mos a azeitona uma a uma.

Depois da oliveira estar toda limpa tínhamos que colher as que estavam no meio das ervas. Não era fácil, pois como a colheita é no mês de Novembro e Dezembro e por vezes início de Janeiro, o tempo está muito frio e as mãos gelavam, ficavam engadanhadas como se dizia antigamente. Então eu dizia mãe tenho as mãos engadanhadas, ela respondia assopra ar quente com a boca e mete-as um bocadito debaixo dos braços. Confesso que não era fácil.

Anos mais tarde já eram espalhados debaixo das oliveiras uns panais, (panos que se estendem junto às oliveiras onde caem as azeitonas). Estes eram grandes serapilheiras ou bocados de tecidos velhos cozidos uns aos outros pelas pessoas. Tinham como fim, quando azeitona cai-se aquando da apanha ,em cima do panal, era mais fácil de colher.

No entanto era um tempo alegre, Ouvia-se as pessoas cantar as desgarradas em cima das oliveiras, por vezes em Cortecega ouviam-se as pessoas nas encostas de Carcavelos ou Carvalhal Miúdo.


À entrada desta rua

Logo mesmo à entrada

Há uma oliveirinha nova

Que ainda não foi abanada


Apanhemos a azeitona

Que a comem os pardais

Comem uma, comem duas

Comem três, não comem mais.


Azeitona miudinha

O rouxinol a namora

Pega nela no bico

Bate a asa vai-se embora.


A tua oliveira é grande

Mas a azeitona é miudinha,

Não penses que me enganas

Pois a minha é mais graudinha.


Mais graúda é a tua

Mas de qualidade menor,

Quando o meu azeite chegar

Terá muito melhor sabor.


"Verde foi meu nascimento,

Mas de luto me vesti;

E, para dar a luz ao mundo,

Mil tormentos padeci.


Como demorava alguns dias para apanhar a azeitona toda, era utilizado um método que era o seguinte:

No final do dia despejava-se a azeitona para um panal e era escolhida, ou seja, retirada a folhas e o lixo que tinha. Depois era colocada na tulha, uma camada de azeitona, uma camada de sal, assim sucessivamente até terminar a apanha.


Posteriormente era comunicado aos lagareiros que trabalhavam no lagar que existia em Góis, que a azeitona estava pronta e ensacada para levar, como havia poucos lagares por vezes esperava-se alguns dias para as viram buscar. Passavam com uma camioneta e levavam as de mais pessoas.

Ao chegar ao lagar por vezes tinham ainda de esperar um dia. Para cada um conhecer o seu saco de azeitona metia-se um papel, um fio de outra cor qualquer sinal, servia desde que não fossem misturadas pois cada um queria o seu azeite.


No dia da moagem do azeite, os proprietários da azeitona tinham de ficar no lagar a ajudar os lagareiros. Quando a azeitona não chegava para um moinho a azeitona era pesada e o proprietário trazia os litros do azeite, conforme os quilos de azeitona que tivesse levado. Normalmente tínhamos azeite para todo o ano! Havia anos em que tinhamos mais. Outros anos haviam menos. Depende, conforme a azeitona que fosse, porque as oliveiras nem sempre carregavam todos os anos.


A azeitona era despejada para o pio depois começava a moagem, Dentro do pio existiam a Galga, onde rodavam duas imensas rodas de pedra, as mós, que pisavam a azeitona até ficar tudo feito numa massa preta.


Quando a massa da azeitona estava em condições era colocada em seiras (uma espécie de capacho redondo, em tecido de sisal, algumas, já na era do plástico, entrelaçadas por cordão de fibra sintética), e colocadas umas sobre as outras, até atingir a altura de um homem (1,80m +/-) em ccima da vagoneta, nos seus próprios carris por onde circulava em direcção às prensas.


A vagoneta tinha uma torneira, por onde saía a água russa com o azeite, que depois era encaminhada para umas grandes tinas de metal, "as tarefas".

Esta máquina, munida de fortes rodas laterais puxadas por fortes correias, comprimia o ar que iria fazer pressão na base das prensas, que, com o respectivo êmbolo, levantava as vagonetas com os seiras e a massa negra da azeitona, comprimindo-as contra o tecto metálico da prensa, para espremer o líquido, aquela água russa, que também transportava o azeite.

Nesta operação podem ser utilizados entre quarenta a cinquenta «capachos», alternando com outras tantas camadas de azeitona, cada camada correspondendo, aproximadamente, a dez quilos de pasta de azeitona.

O líquido assim obtido corre da prensa para as pias ou talhas de pedra (designadas, antigamente, na Beira Litoral, por «tarefas»), tomando, a partir daí, o nome de «águas russas». A substância permanece nas pias entre três a quatro horas para efectuar-se a decantação, ou seja, para que o azeite venha ao de cima, enquanto as impurezas ou «almofeira» é escoada pelo «ladrão», uma abertura no fundo da pia, que a leva para um outro depósito, que não se encontra à vista. As impurezas ou subproduto escoado e depositado no «ladrão» são utilizados em várias aplicações: rações para animais, óleos, sabões, etc.


Nestas tinas depositavam-se a água e o azeite, com água quente, permanentemente, a correr para dentro delas. Esses depósitos possuíam uma torneira na parte inferior, por onde ia sendo retirada a água à medida que o azeite se ia purificando e aparecia, dourado, na superfície da água.

As tarefas possuíam outra torneira na parte superior, ligada aos tubos que conduziam à separadora. Quando o azeite já estava decantado, vazava-se água suficiente, para que o azeite se, encontrasse sempre à superfície e chegasse ao orifício dessa torneira, para sair para a separadora no percurso da purificação final.


A fornalha, espaço onde se acendia e mantinha permanentemente uma forte fogueira, situava-se na parte inferior da caldeira metálica em que a água era aquecida. A água entrava fria, vinda do rio, e saía a ferver para as máquinas e para as diversas tarefas que o pessoal tinha que desempenhar com a ajuda dos proprietários da azeitona.

Existia a separadora que servia para quando o azeite já estava quase liberto da água e das maiores impurezas, era levado por tubos para a separadora, que lhe dava o retoque final. Separava definitivamente a água e as impurezas do azeite.


O azeite, depois de ter sido passado pela separadora, era colocado nestes potes nos quais era transportado e entregue na casa do proprietário da azeitona.


Este processo era muito demorado. Por vezes as pessoas ficavam lá um dia e uma noite. Então para matar a fome, as pessoas levavam batatas. O Lagareiro sabia aproveitar muito bem os meios que tinha ao seu dispor. Os seus afazeres não lhe permitiam confeccionar outros alimentos. Assim, colocava as batatas e o bacalhau na fornalha e bastava dispensar-lhe um pouco de atenção, sem perturbar o seu trabalho, enquanto as máquinas lhe impunham desembaraço, no espaço e no tempo.

Conseguia ver confeccionada a sua refeição e dos restantes, quase sem se preocupar. Bastava-lhe colocar lá os alimentos, dar-lhe uma mexedela, sempre que tivesse que abastecer de lenha na fornalha e esperar que as brasas fizessem o resto.


Assim, se repetem, no desfiar dos anos, ritos e tarefas, risos e confraternização, nascidos de um tempo que não se apaga na memória das gentes. Todavia, se do presente pouco há a dizer, do passado não. Por isso se lembra aqui algumas das tradições de outros tempos das quais restam ainda alguns rituais que teimam em sobreviver.


Mas os tempos mudaram, e hoje estes lagares não são permitidos por lei. Hoje, mesmo que os actuais proprietários quisessem manter este Lagar a funcionar, isso não seria possível, poisas múltiplas exigências da União Europeia não o permitem.


Enfim!
São circunstâncias do tempo.

A azeitona segue as fases de um fruto normal, quer dizer:

A árvore floresce, nos meses de Maio e Junho.

Dessa flor nascem as azeitonas, minúsculas bagas verdes, que vão crescendo com o tempo, durante cinco/seis meses.

Nesse período a azeitona amadurece e toma a cor preta.

domingo, 1 de Novembro de 2009

OS MOINHOS "Capítulo 4"

Fotos do moinho já restaurado no Corterredor


Hoje são apenas meras relíquias patrimoniais dum passado recente deste povo. Podemos encontrá-los abandonados ao longo das ribeiras. Os mais antigos, eram pequenas construções sem janela, apenas com a porta de entrada e uma "trepeira", que é um pequeno buraco arredondado feito numa laje do telhado. Na minha aldeia só me lembro haver um no Javiel.

Lá dentro um engenho composto de duas mós em pedra de granito, rodeadas de três lajes altas a que chamavam o "cambado". Sobre a mó de cima estava a "moega", uma espécie de caixa afunilada em madeira, onde se deitava o cereal para moer. Este saía pelo fundo da "moega", através da "quelha", uma pequena calha em madeira suspensa por três cordéis que regulavam a saída do cereal, rápida ou lenta. Sobre esta, assentava um dos três braços do "chamadouro", uma espécie de cruz em madeira que ao mesmo tempo assentava sobre a mó superior do moinho, fazendo tremer a calha e cair o cereal lentamente para o olho da mó, que depois de transformado em farinha caía para o "tremunhado".


Na mó superior encaixava a "segurelha", peça de ferro em forma de cruz que por sua vez ligava à "vela", um tronco de madeira aprumado, onde encaixava o "rodízio" uma espécie de roda formada por vinte e quatro penas de madeira nas quais batia a água fazendo mover o moinho.


Este conjunto, situava-se no "cabouco", parte inferior do moinho, assente sobre a "grama", um tronco de medronheiro bifurcado ao qual ligava o pau da cruz vindo do interior do moinho que regulava as mós para moerem mais fino ou mais grosso, conforme o moleiro subisse ou descesse a mesma.


Depois de moída, a farinha era levada para casa em sarrões a fim de se cozer o pão que geralmente era sempre broa, dado que o centeio era só confeccionado em dias de festa. No entanto a sua farinha habitualmente era misturada com a de milho para tornar a broa mais macia e saborosa.


Também este moinho era comunitário onde todos podiam moer o seu milho ou trigo. Contudo, havia regras, cada um tinha o seu dia ou noite. Rodava por todas as famílias da aldeia. Quando alguém precisava de moer no dia do outro tinha de pedir autorização. Lembro-me de ir ao moinho do Javiel com a minha mãe já muito tarde ao longo da noite. Na mão levava-mos a candeia a petróleo para nos alumiar o caminho. Eu tinha muito medo, ia sempre agarrada à saia da minha mãe, pois na altura contava-se que havia lobisomes que atacavam as pessoas de noite.


quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

"BROA DE MILHO" Capítulo 3

TRIGO. MILHO. CENTEIO.

Broa simples ou com mistura (milho, trigo, centeio), são formas apetitosas e nutritivas que datam de tempos imemoriais. Muitas vezes simbolo de enorme pobreza, a broa de milho era o único sustento na casa do trabalhador agrícola, quando não era possível chegar a outros recheios alimentares. Cultivando o milho que mais tarde se colhia e era levado para transformar em farinha no moinho existente no javiel onde passa o Rio Ceira. Mais tarde levava-o ao moleiro.

Havia, outrora, fornos comunitários onde era feito o «pão-nosso de cada dia» e aquela saborosa (bola com bacalhau ou sardinha) que alimentavam verdadeiras festas familiares. Lembro-me de ver a minha mãe fazer broa. E que broa tão boa!

Hoje ainda se coze a broa, mas antigamente as pessoas faziam-no duas ou mais vezes por semana no forno comunitário, pois o pão era só para quem podia. Primeiro peneirava-se a farinha. Depois de peneirada, colocava-se o sal e um pouco de água morna.

Naquele tempo tiravam o fermento. Guardavam um bocadinho daquela massa leveda, punham num tigelão e guardavam-na para quando voltassem outra vez a fazer broa, porque não havia fermento como há agora.

Agora compra-se fermente de padeiro, à noite aquece-se no fogão numa cafeteira ou tacho um pouco de água, desfaz-se um bocadito de fermento, depois, junta-se um pouco da farinha que está na gamela para o dia seguinte amassar a broa. No dia seguinte Junta-se a farinha: metade de farinha de milho, metade de trigo, com um pouco de sal e água morna, amassa-se bem e depois de bem amassada é polvilhada com farinha e com a mão faz-se uma cruz em cima da massa, pedindo a Deus a bênção do pão, para que fintasse bem, dizendo ao mesmo tempo as seguintes palavras" Deus te ponha a santa virtude que eu de mim fiz o que pode".

Cobre-se a gamela com os panais ou cobertores e cerca de uma hora mais tarde está finta a broa.
Enquanto a broa ficava a levedar, vai-se aquecer o forno com lenha que se vai varrendo para um lado do forno e depois para o outro. Este tem de estar bem quente. Para o saber, as paredes do forno devem estar esbranquiçadas, sinal de que o forno estava quente e a massa já estiva finta, o forno é varrido de imediato com o vassoiro. Feita a varredura, as mulheres tendiam as broas e o homem com uma pá de ferro redonda colocava-as no forno, arrumando-as bem arrumadinhas para caberem todas.

Tender a broa e deita-la na pá do forno não é fácil, confesso que sempre gostei muito de amassar e tender a broa mas nem sempre o tender me calhava bem. Em Setembro, quando estive na minha terra tentei tender, mas não correu muito bem. Valeu-me a minha madrinha Ilda que com a sua rapidez fez aquilo como se nada fosse, tal é o hábito!

A broa da minha mãe podia ir de qualquer maneira que ficava sempre bem! Ela só lhe dava ali meia volta, "bumba", e punha-a logo na pá para ir ao forno. Nunca fui capaz de fazer isso.
Agora já pouca gente coze a broa, mas antigamente havia um forno comunitário onde todos podiam fazê-lo, sendo este muitas vezes, o único tipo de pão existente. Contudo, havia regras, cada um tinha a sua semana ou dia. Quando alguém precisava de cozer a broa no dia do outro tinha de pedir autorização. Mas, muitas vezes as pessoas juntavam-se 3 ou 4, e coziam todos na mesma fornada. Para se poder saber de quem era a broa cada dono colocava um sinal, uns era um buraco feito com um, outro de dois, outros de três ou quatro dedos e assim todos sabiam a quem pertencia cada broa.

Lembro-me que a minha mãe deixava um restinho de massa, juntava-lhe um preparado com bacalhau ou sardinha, (que bom que era) ficava logo no ínicio do forno porque se cozia primeiro que o restante. Noutro capítulo deixo a receita.


O Forno bem quente....

A Senhora a tender a broa que está na gamela, com o tegelão
(Foto retirada do blogue de Chão Sobral)

Bola de Sardinha

Broa

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

"HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA" Capítulo 2

A aldeia de Cortecega foi sempre uma aldeia com tradições, costumes, usos ,bailaricos e festas que se mantém até hoje.

Como já referi anteriormente existiu aqui um Rancho Folclórico só com habitantes desta terra. Chega-mos a ser mais de 35 elementos, entre dançarinos, tocadores e organizadores. Éramos uma família.

À semelhança de outras aldeias do interior, a nossa também nesta época não tinha luz eléctrica. As estradas eram em terra batida. O correio passava 3 vezes por semana e mais tarde começou a passar todos os dias. O carteiro percorria várias aldeias e sempre que chegava, agarrava na corneta e tocava 3 vezes para as pessoas saberem que tinha chegado. A água era de um chafariz existente no meio da aldeia e quando o verão era muito quente faltava a água e tinha-mos de a ir buscar em cântaros e bilhas à cabeça, a mais ou menos um quilómetro de distância. Na aldeia, havia uma mercearia que se chamava Mercearia do “Tio Rafael”. Este não sabia ler nem escrever, anotava tudo com uns riscos num papel, mas não enganava ninguém nem se deixava enganar. Esta mercearia tinha de tudo um pouco, era servida todos os fins-de-semana pelos filhos, o Tio Zé e o Tio Mário, que tinham, e ainda tem um supermercado em Coimbra.
Chegou a ser umas das aldeias dos arredores com mais habitantes. Só pessoas entre os 10 e 19 anos era-mos 17, fora os mais pequenos e os mais velhos. As casas que hoje se encontram vazias ou em ruínas, estavam cheias de famílias com 6, ou mais pessoas.

Todos os fins-de-semana haviam um bailarico, vinham pessoas doutras aldeias e principalmente jovens, pois nesta aldeia havia muitas raparigas. Era um dos entretimentos, onde se divertiam novos e mais velhos.
Ao som do gira-discos, do rádio, do gravador, do harmónio, da concertina ou da flauta. Qualquer coisa servia para divertir este povo sempre muito reinadio e danado para a paródia. Como não havia luz eléctrica, estes bailaricos eram feitos á luz da candeia a petróleo ou à luz do luar.
Os rapazes muito malandrecos, passavam pela pessoa que estava com a candeia à cabeça e assopravam para a apagar, aproveitando este momento para dar um beijinho ao seu par.

Deixo aqui uma foto deste tempo. Obrigada ao Jorge que guardou esta preciosidade e ainda lhe colocou legendas.

Lá a trás penso que é a Teresa a dançar com o Aníbal, mais à esquerda a Cecília com o João, Eu (Eugénia) a dançar não sei com quem, pois não se vê, à direita mas atrás está a Fátima a dançar com o Joaquim e à frente a Anabela com o Américo e o Jorge com a Isabel. Se eu estiver enganada por favor corrijam-me.

"OS OBSTÁCULOS"

Não é fácil manter-se a calma nos momentos em que vemos as nossas perspectivas bloqueadas por impedimentos e demais dificuldades, obrigando-nos a estacionar, longa ou brevemente, na mesma situação.

No entanto, por mais que nos pareça ela é interminável, é possível seguir em frente, contorná-la da melhor maneira possível, transformá-la, até, em proveitosa lição para as nossas nossa vida.

Surgem os problemas para nos fortalecer, aguçar os nossos sentidos, nos abastecer de ânimo e confiança para jornadas futuras, talvez mais ásperas e definitivas.

Os obstáculos são mestres valiosos.
Saibamos enfrentá-los, aprendendo com eles...

domingo, 25 de Outubro de 2009

"HISTÓRIAS DA MINHA ALDEIA" Capítulo 1

Hoje começo aqui um outro capítulo deste blogue. Por capítulos vou contanto um pouco mais da história desta aldeia e das suas gentes.
Como a maioria dos habitantes da aldeia, os meus pais eram muito pobres. Quase todos, viviam de uma agricultura de subsistência e do pouco dinheiro que o meu pai trazia da carpintaria onde trabalhava.
Os bens alimentares, como a batata, o tubérculo essencial nesse tempo à alimentação familiar, o milho o feijão, a couve entre outros que eram semeado em terras nossas e de arrendamento.
Na nossa velha e pobre casa, onde, em dias invernosos, era preciso aparar as goteiras de água com baldes pois o tecto tinha buracos.
As grossas paredes exteriores eram em pedra, mas o interior, quase amplo, tinha umas paredes de contraplacado que separavam as três divisórias. Duas divisões pequenas em forma de quarto, um dos meus pais e do meu irmão mais novo e o outro meu e dos meus outros dois irmãos, pois a minha irmã mais velha já era casada.
O chão era de madeira, percorrido por uns quantos buracos tapados com tábuas.
O vestuário era o mais simples e quase sempre feito de roupa que era dada à minha mãe e ela aproveitava para fazer roupa para os filhos.
Brinquedos comprados, nem pensar! Não havia dinheiro para tais luxos. Nós fazíamos os nossos brinquedos, eu, fazias as bonecas de trapos velhos (eram as bonecas mais lindas que eu conhecia). Os carros e barcos dos meus irmãos eram feitos da casca do pinheiro (carrasca). Como é um material muito maliável era fácil de trabalhar. Um outro brinquedo que usava era a fisga. O elemento principal era recortado de um ramo de árvore em forma de Y, e as extensões elásticas eram cortadas de uma câmara-de-ar de bicicleta. Este pequeno brinquedo, era uma armadilha para, através de isco, apanhar aves, então lá iam os rapazes para as terras em redor tentar apanhar um pássaro.

Quando entrei para a escola primária, em 1969, em Góis, que ficava a cerca de quatro quilómetros da minha aldeia, então com 6 anos de idade, não ia sozinha pois a aldeia de Cortecega tinha muitos miúdos. Nessa época chegámos a andar 17 na escola primária, todos ao mesmo tempo.
No ano em que nasci nasceram mais 5 crianças nesta aldeia. Como todas as crianças do lugarejo onde vivia, íamos a pé, fizesse chuva ou sol escaldante. A roupa e calcado que usávamos por vezes não se adequavam ao tempo. Lembro-me de no inverno chegar-mos à escola completamente encharcados. Nesta altura havia uma escola de raparigas e outra de rapazes.
A alimentação era levada de casa, coisas cultivadas no campo como a broa de milho, milho este cultivado por nós, os ovos, mas na maioria das vezes era uma sardinha na broa. Lembro-me de uma colega, a Lena cujos pais eram caseiros numa vacaria e por vezes ela trocava a minha sardinha pelo queijo dela.
Tínhamos de nos levantar muito cedo e palmilhar aqueles quatro quilómetros e à tarde, quando a escola terminava, regressávamos todos juntos.
Nestes tempos não se bebia café todos os dias de manhã, pois era um bem só para quem podia, mas os nossos pais sempre que chovia e chegava-mos molhados a casa, faziam-mos um café bem quente porque ajudava nos resfriados (constipações) e nós como gostavá-mos tanto deste miminho, muitas vezes deitávamo-nos nas valetas cheias de água para chegármos a casa molhados e termos direito à caneca de café quentinho.

Uma das alturas mais bonitas do ano era o Natal. Na minha casa nunca faltou o presépio, íamos ao campo apanhar o musgo, a cabana era de bocados de pedras maiores revestida de palha de centeio, as casas era feitas com pedras pequenas, as ovelhas com um bocado de pau e lã que tirava-mos das ovelhas a igreja era simbolizada por uma cruz feita com paus.
No dia de Natal acordava-mos cedo, pois apesar de pobres a minha mãe tinha sempre uma coisinha dentro das nossas botas de borracha, ou umas meias ou um bocadinho de palha. Esta palha era vendida ao quilo, e era composta pelas aparas das bolachas de baunilha. A cada um calhava um bocadinho embrulhado num cartucho, feito de papel da lista telefónica. Ía-mos assistir à missa à vila, que como já disse, fica a cerca de quatro kilómetros.
O almoço deste dia era um bocadinho melhor: canja de galinha e arroz com galinha ou um bocado de carne de porco, arroz doce e filhós, sempre que possível, na companhia da família e amigos.
Nunca houve fartura na minha casa, mas graças a Deus, nunca passei fome, coisa que muita gente passou.
Comecei a trabalhar com 11 anos, pois os rapazes podiam ir para o liceu as raparigas ficavam para ajudar nas lidas da casa. Com o tempo a vida foi melhorando muito e hoje a vida no interior, muitas vezes, tem mais qualidade que na cidade. É Pena que as pessoas tivessem que partir à procura de emprego, como o caso da maioria das pessoas que migraram. Sempre que posso vou lá passar uns dias para recarregar baterias.
No entanto guardo esta fase da minha vida com muito amor, serenidade e paz, que são um dos pilares da minha evolução como pessoa.
Esta minha história é a história de muitos meninos desta aldeia e de outros aldeias nestes tempos passados.
Publico aqui a cópia da capa dos três exemplares dos livros escolares, que já em adulta comprei, para mais tarde os voltar a ler e contemplar, uma vez que os meus eram emprestados e passaram para outros meninos. Ainda me falta o da quarta classe.
Deixo aqui uma das muitas histórias passadas nestas aldeias que continuarei a contar neste blogue. Estas, só servem como testemunho para jovens que hoje desistem da escola logo no primeiro obstáculo.

A MINHA ALDEIA

" Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver. "
Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos"