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domingo, 1 de novembro de 2009

OS MOINHOS "Capítulo 4"

Fotos do moinho já restaurado no Corterredor


Hoje são apenas meras relíquias patrimoniais dum passado recente deste povo. Podemos encontrá-los abandonados ao longo das ribeiras. Os mais antigos, eram pequenas construções sem janela, apenas com a porta de entrada e uma "trepeira", que é um pequeno buraco arredondado feito numa laje do telhado. Na minha aldeia só me lembro haver um no Javiel.

Lá dentro um engenho composto de duas mós em pedra de granito, rodeadas de três lajes altas a que chamavam o "cambado". Sobre a mó de cima estava a "moega", uma espécie de caixa afunilada em madeira, onde se deitava o cereal para moer. Este saía pelo fundo da "moega", através da "quelha", uma pequena calha em madeira suspensa por três cordéis que regulavam a saída do cereal, rápida ou lenta. Sobre esta, assentava um dos três braços do "chamadouro", uma espécie de cruz em madeira que ao mesmo tempo assentava sobre a mó superior do moinho, fazendo tremer a calha e cair o cereal lentamente para o olho da mó, que depois de transformado em farinha caía para o "tremunhado".


Na mó superior encaixava a "segurelha", peça de ferro em forma de cruz que por sua vez ligava à "vela", um tronco de madeira aprumado, onde encaixava o "rodízio" uma espécie de roda formada por vinte e quatro penas de madeira nas quais batia a água fazendo mover o moinho.


Este conjunto, situava-se no "cabouco", parte inferior do moinho, assente sobre a "grama", um tronco de medronheiro bifurcado ao qual ligava o pau da cruz vindo do interior do moinho que regulava as mós para moerem mais fino ou mais grosso, conforme o moleiro subisse ou descesse a mesma.


Depois de moída, a farinha era levada para casa em sarrões a fim de se cozer o pão que geralmente era sempre broa, dado que o centeio era só confeccionado em dias de festa. No entanto a sua farinha habitualmente era misturada com a de milho para tornar a broa mais macia e saborosa.


Também este moinho era comunitário onde todos podiam moer o seu milho ou trigo. Contudo, havia regras, cada um tinha o seu dia ou noite. Rodava por todas as famílias da aldeia. Quando alguém precisava de moer no dia do outro tinha de pedir autorização. Lembro-me de ir ao moinho do Javiel com a minha mãe já muito tarde ao longo da noite. Na mão levava-mos a candeia a petróleo para nos alumiar o caminho. Eu tinha muito medo, ia sempre agarrada à saia da minha mãe, pois na altura contava-se que havia lobisomes que atacavam as pessoas de noite.


1 comentário:

MJ FALCÃO disse...

Como são lindos os moinhos, Eugénia! Gostei muito deste teu post. Venho sempre dar uma olhadela...
Estou a ler um livro fantástico (a reler...)da George Eliot, (séc.XIX)romancista inglesa: "O moinho à beira do rio". Procura: hás-de gostar...

A MINHA ALDEIA

" Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver. "
Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos"