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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O CARNAVAL E AS SUAS TRADIÇÕES‏

As minhas filhas quando eram pequenas

Na minha aldeia o Entrudo ou Carnaval como hoje é chamado vivia-se de forma simples. Procurava-se roupa e objectos velhos, algo que escondesse o rosto e de seguida brincava-se…

No dia de carnaval, durante a manhã as pessoas iam trabalhar para o campo. Quando regressavam para almoço era tradição comer o pé, a orelha e o bucho do porco. A seguir ao almoço todos se juntavam e corriam o Entrudo, mascarados de várias maneiras e encarvoados com ferrugem dos fornos de coser o pão ou da lareira.
Reuníamo-nos todos uns dias antes para combinar-mos de que maneira nos íamos mascarar. Tudo nos servia para fantasiar. Então, decidida qual a fantasia de cada um, começava o "assalto" á arca da roupa dos familiares, em busca dos adereços adequados, e cada qual se revestia da personagem escolhida. Uma era a noiva, outra a velhinha, os meninos vestiam-se de pedintes, velhos, coxos, marrecos, barrigudos, enfim … cada um se fantasiava nas suas personagens favoritas e conforme a roupa e a ocasião assim o inspirassem.
Também fazíamos espantalhos em tecido e palha para colocar na porta das pessoas na noite de carnaval. De manhã ao abrir a porta, o espantalho caía e as pessoas assustavam-se e gritavam. Outra das brincadeiras era prender as portas das casas dos vizinhos umas às outras com cordas. De manhã cedo lá estávamos nós a espreitar a reacção de cada um. Gerava-se logo ali um alvoroço tremendo:

- Ó tia Maria, Ó comadre, valha-me Deus, venha-me abrir a porta, ai aqueles malandros prenderam-ma. - Não posso! A minha está presa também. E lá ia um de nós abrir a porta, sem que ninguém nos visse. Na rua mais abaixo ouvia-se o grito da comadre Aiiiiiiiiiii -Tinha sido o espantalho que caiu em cima da tia Antónia e assustou-se.

Em cortejo pelas ruas da aldeia e das aldeias próximas, lá ia-mos nós visitando casa a casa onde tudo era permitido: Cantar quadras espirituosas sobre os habitantes dessas aldeias, atormentar as velhas e seduzir as novas!

Viva o António e a Maria
Pois, a ninguém fazem mal
A bebedeira é só uma
De Carnaval a Carnaval
*******
Ó Manuel tu és jeitoso
Cortejas uma bota feia
A tua mãe é marreca
O teu pai namora toda a aldeia
*********
Ó que rapariga tão bela
Tapa o rosto com um véu,
A mãe é a maior rameira
Os chifres do pai chegam ao céu.
*********
O que cachopa tão linda
Casada com um homem tão feio
Mais vale ficar a zeros
Do que tê-lo como travesseiro
**********
A identificação de cada um, era um dos segredos mais bem guardados, e os comentários dos vizinhos provocavam as mais engraçadas gargalhadas, ao nos confundirem uns com os outros. Então, como recompensa pela diversão proporcionada, todos nos ofereciam algum presente, geralmente coisas para comer, ou dinheiro, podiam ser ovos, chouriço, frutas, ou outros.
E o desfile findava no largo da aldeia, onde se fazia um lanche geral, com os presentes ganhos, no qual todos ríamos e contávamos vezes sem conta, as peripécias da tarde. No largo era colocado um pau (ou pinheiro) envolvido com muita palha, na ponta tinha um boneco de uma velha. Este era incendiado há meia-noite e fazia-se o enterro da velha. E assim chegava a hora da má-língua, todos tinham a liberdade de dizer o que não diziam ao longo do ano, fosse mal do vizinho ou do governo.

Oiça lá minha senhora
Se não anda com homem casado
Porque vai fora d`horas
Para o lado do adro…
***********
Lá tiveste que casar
Levaste a tua avante
Era melhor mãe solteira
Que um filho de cada amante…
************
Os políticos de Portugal
Só sabem prometer é gritar
Assim que chegam ao poleiro
Para o povo se estão a borrifar.
************
E era assim o Entrudo (Carnaval) dos meus tempos de juventude. Hoje é vivido de maneira bem diferente mas alegre também..

5 comentários:

Acácio Moreira disse...

Olá Eugénia!
Lindo texto descrevendo o nosso tradicional carnaval, em tempos anteriores.Vocês colocavam o boneco de palha encostado à porta da vizinha. Que malvadez!. Cheguei a fazer um pouquito melhor ir prender a burra do snr António "sapateiro" à fechaduran da porta. Agora veja o susto que os visados sofriam , quando por dentro puchavam com força a porta e atràs vinha uma burra. Chegaram a desmaiar,só malandros! que malvados.
Um abraço
Acácio

M. Lourdes disse...

Olá Eugénia
Engraçado o Carnaval nas nossas aldeias.
Às vezes havia situações em que se ultrapassavam os limites pois, a coberto das máscaras, fazíamos o que com a cara destapada não tínhamos coragem de fazer. Mas era uma época que passava por todos. Quantos não foram apanhados com as partidas que pregaram enquanto jovens?
Desejo-lhe um Carnaval divertido.
Beijinhos

Sandra disse...

Muito interessante o seu texto...
Gostei..Hoje também não vou mais pular..até por que o Carnaval, já perdeu um pouco do seu verdadeiro sentido.

Ola amigo!
Também estou participando da Coletiva.
Por isso vim convidar para brincarmos o carnaval..Passe lá.
Estou na Coletiva da Minha aldeia, com o blog http://sandrarandrade7.blogspot.com.
Te espero no blog para conferir e brincar este carnaval.
Vou te espear por lá.
Com muito carinho
Sandra
Sandra

Sandra disse...

Desculpe o Amigo, minha amiga..
Sau um o envés de a.
Me perdoe.
Sandra

eugeniasantacruz1@gmail.com disse...

Olá Amiga Sandra!
Desculpas aceites.

Quero agradecer a todos, os vossos comentários, é gratificante quando alguém visita o nosso blog. e gosta do que lhe transcrevemos de alguma forma o que de puro e belo se passava nas nossas aldeias.

Um beijo grande…
Eugenia Cruz

A MINHA ALDEIA

" Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver. "
Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos"