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terça-feira, 9 de março de 2010

A ALDEIA ONDE CRESCEU O MEU PAI...

Meu pai ( Arlindo de Santa Cruz)

Tal como prometido, aqui publico o texto que fiz sobre a aldeia onde nasceu o meu pai e que vai estar a concurso no blog http://www.aldeiadaminhavida.blogspot.com/. a partir do dia 14/3/2010, Visite, desfrute da leitura e vote no seu texto preferido.

Escrever algo sobre a aldeia onde o meu pai nasceu não é difícil, pois é das aldeias mais bonitas de Portugal, é a minha aldeia. Mas antes quero falar do maravilhoso ser que era o meu Pai de nome Arlindo Santa Cruz. Nasceu a 17 de Março de 1932, um dos mais novos de sete irmãos. Homem de estatura baixa, lindos olhos azuis, amigo de todos. Para o meu pai tudo estava bem, de um coração do tamanho do mundo, estava sempre pronto a ajudar o próximo, um grande pai.
O meu pai morreu muito novo, mas deixou-me muitas mensagens (valores) que ainda hoje regem a minha vida, uma delas tem a ver com o dia em que saiu de casa para honrar um compromisso e não mais voltou. No dia anterior tinha se comprometido após muita existência por parte de o antigo patrão em o ir desenrascar e acabar umas janelas que só ele sabia fazer, pois era um excelente marceneiro. No dia seguinte, acordou muito doente e a minha mãe disse-lhe:
-Arlindo não vás trabalhar, estás tão doente! Nós cá nos arranjamos sem esse dinheiro.
Ele respondeu:
-Mulher, eu comprometi-me e já o meu pai dizia que vale mais a palavra que o dinheiro e eu quero honrar o meu compromisso.
Foi ao nosso quarto despediu-se dos filhos e prometeu trazer (chaços) rebuçados. Morreu nesse dia, atropelado por uma mota ao regressar do trabalho.

O meu pai, rumou a Lisboa nos anos 40 para trabalhar numa carpintaria no alto de S. João: “CARPINTARIA MELÃO”. Entretanto, como gostava da minha mãe regressou a aldeia para casar. Mais tarde a minha mãe e a minha irmã mais velha vieram ter com meu pai a Lisboa, mas um ano depois regressaram novamente à aldeia. Foi trabalhar para a oficina que se mudou de Lisboa para Góis e ali viveu até dia 30 de Setembro de 1976 dia em que faleceu. Tiveram 6 filhos, quatro rapazes e duas raparigas.

Falar da aldeia de Cortecega, é dizer que é uma aldeia pequenina, situada no interior de Portugal a 4 km da linda vila de Gois, seu concelho, a 40 km da Cidade dos (Doutores) Coimbra, seu Distrito. Tem o privilégio de estar rodeada de vales e montes verdejantes, casas de Xisto, pintadas de branco, amarelo e azul, ruas e caminhos limpos. O Rio Ceira passa a seus pés com suas águas límpidas e cintilantes.
Recebe vem quem a visita, agora com poucos habitantes. Mas, já teve muita gente, chegou a haver um grupo folclórico com cerca de 30 elementos todos desta aldeia, éramos todos família, porque todos os irmãos/ãs do meu pai casaram com irmãos/ãs da minha mãe, outros casaram com pessoas da terra, assim, mais tarde os seus descendentes era quase tudo família.
A vida nos anos trinta nas aldeias era muito difícil. Os jovens raramente iam a escola, tinham de trabalhar no campo ajudando no cultivo das terras e guardar o rebanho. Às vezes, quando tinham fome, ordenhavam uma cabra e bebiam o leite com a broa que levavam na sacola. Como não havia energia eléctrica na aldeia, tudo era feito à luz da candeia a petróleo. A água era transportada em bilhas que eram enchidas no chafariz da aldeia.
A alimentação nas aldeias baseava-se no feijão, grão, batata, hortaliça e pão, trigo e milho que eram produzidos pelos próprios habitantes. A carne de galinha e de porco que criavam durante o ano eram as carnes mais consumidas.
Usavam roupa às vezes com remendos, andavam descalços ou usavam botas fortes, feitas nos sapateiros da aldeia, com sebo para não molhar os pés quando ia para o mato ou para o campo. Tinham que ir apanhar mato para pôr nos currais dos animais e depois tiravam o estrume para fertilizar as terras. Era assim a vida nas aldeias onde viveu o meu pai.

Os seus habitantes foram sempre muito unidos. São estes que ainda hoje tudo fazem para que a sua terra tenha as condições necessárias para receber bem quem a visita. Foi construída uma hospedaria “HOSPEDARIA TREPADINHA” com a força vontade e muito trabalho, (pode consultar as fotos no meu Blog). Ao longo do ano são realizados vários encontros, sempre com almoços e festa. As mais relevantes são Festa de N. S. das Neves no primeiro fim-de-semana de Agosto, o Almoço da Amizade em Março/Abril, os Motardes em Agosto, encontro de concertinas e almoço das vindimas em Outubro entre outros.

E, assim fiz um pequeno texto retratando um pouco a aldeia onde nasceu e cresceu o meu pai.

Eugénia Santa Cruz

9 comentários:

Anónimo disse...

Ola Génia é bom saver que nao esqueçes a vida que vivemos naquela altura,paravems cotinua linda fota,em primeiro a tua mae e agora o teu pai deixas me sem palavras obrigada.Bjs

Acacio Moreira disse...

Olá Eugénia!
Sem palavras, Este texto deixou-me com as lágrimas nos olhos. Um texto sem ironias, tudo aqui escrito são puras realidades, prova isso quem viveu estes tempos difíceis nestas isoladas aldeias recheadas de gente pobre, com uma subsistência de vida muito difícil. Vivia-se maioritariamente da agricultura e do pastoreio. Gente humilde, mas que sempre viveu honradamente na esperança de um dia ter uma vida melhor.
Excelente texto, parabéns.
um abraço
Acácio

Adriano Filipe disse...

Bom dia
Sabe!acompanho este seu blog todos os dias,agradeço estes textos que escreve,são lindos,puros e sinceros
gosto muito,parabéns continue.
Fiquei muito enternecido.
Obrigado.
Felicidades

Dina Neves disse...

Génia :
Amiga mais uma vez conseguiste com este teu texto de homenagem ao teu pai, tocar no coração de quem o lê.E a mim fizeste com que eu viajasse aos meus tempos de criança...
Do teu pai mal me recordo, mas sempre ouvi falar dele com o carinho que transparesses...
Génia lembro-me sim das dificuldades que voçês em vossa casa viveram, mas como tu tbm disseste a tua mãe sempre foi uma grande Mulher e conseguiu juntamente com vocês dar a volta à situação.Génia recordo algumas vezes a tua mãe naquela cozinha rustica e humilde e vocês sentados nos banquitos á volta da fogueira á espera da sopa e do café que ela fazia, e então nessas alturas eu ia para junto de vós deliciar-me, quando ao fim de semana ia até á nossa aldeia de Cortecega.
Génia quando falo disto,recordo a Ti Susana e os seus ultimos dias ...Pensamentos tristes mas são eles que nos amadurecem...
Vou terminar senão fico a ser aquela Amiga chata e massadora...
Continua, é de recordações que nós conseguimos seguir e vencer as lutas dos nossos dias.
bjs

Alberto Manuel Henriques Barata disse...

Cara Eugénia, não tenho o prazer de a conhecer, mas sendo eu natural da mesma região, a minha ascendência maternal é do Esporão e consequentemente, compreendo muito bem a descrição, que faz sobre o que era a vivência das nossas aldeias dos idos anos de cinquenta, sessenta....
Devo dizer-lhe, que toda a factualidade que descreve foi vivida por mim até aos meus 14 anos de idade!
Vida difícil, duríssima, mas que, devido aos paradigmas, que nos eram incutidos pelos nossos queridos pais, o louvor ao trabalho, Etc., Etc.,faziam com que, apesar de tudo, nos sentíssemos felizes e é por isso, que sinto imensas saudades desses tempos da minha meninice!
No início da década de sessenta do Século passado, Cortecega possuía um grupo de lindas, simpáticas e divertidas raparigas, as quais, quer nos bailes realizados em Cortecega, quer noutros lugares, por exemplo no Esporão, com a sua presença jovial e divertida, contagiavam toda a gente, que se encontrasse em redor!
Respeitosos cumprimentos.
Alberto Barata

Helena Teixeira disse...

Olá Eugénia!
Eu fui a 1ª a ler o texto :p É um texto forte e que fica gravado em nós. Pela foto,o seu pai era um homem esbelto e vê-se que era honrado e honrava a sua palavra.Acredito que a filha dele seja uma óptima pessoa,pois conquistou a minha amizade :)

Ah,meninos e meninas que comentaram aqui,não se esqueçam de repetir os ditos no blog da Aldeia a partir do dia 14.Estará lá o texto da nossa Géni a concurso :)

Jocas gordas
Lena

M. Lourdes disse...

Olá Eugénia
Adorei o texto sobre a terra do seu pai. Afinal é muito idêntica à terra do meu, ou não pertencêssemos a concelhos vizinhos.
Eram terras votadas ao abandono pelo poder central e a vida nelas era muito dura.No entanto, vamos lá compreender isto, hoje que as aldeias já têm muitas comodidades estão a ficar desertas...
Beijinhos
Lourdes

Simão Pena disse...

È lindo relembrarmos os que amámos!È lindo amarmos a nossa Terra.
Eu também gosto da minha.
E não gostam das cantigas que cantavam os nossos pais?
Se gostam então vão ouvi-las dia 30 de Maio no encontro de Concertinas em Gois.
As concertinas da Póvoa do Concelho(minha Terra) também lá vão estar.
Até lá.A inha terra Vê-se de longe por quem não pode estar perto pelo Blog: Penedodavila

Sandra disse...

CADA UM DE NÓS TEM UM POUCO PARA FALAR DA NOSSA HISTÓRIA. MUITO BOM O SEU TEXTO.
NOSSOS PAIS, NOSSO PAI. PESSOAS QUE MORARAM PARA SEMPRE EM NOSSO CORAÇÃO.
EMBORA NÃO CONHEÇO PORTUGAL, É O MEU GRANDE SONHO.
FOI ATRAVE´S DESTAS COLETIVAS QUE APRENDI UM POUCO MAIS.
POR EU VENHO COM MUITO CARINHO..
VIM ATRAVÉS DA ALDEIA.
LÁ VC. ESTÁ TAMBÉM.
POR ESTE MOTIVO VENHO CARINHOSAMENTE LHE CONVIDAR PARA COMPARTILHAR COMIGO.
CONVIDO COM MUITO CARINHO PARA VIM VISITAR MEU BLOG E VER A TERRA DE MEU PAI. COLETIVA DA ALDEIA. VOU TE ESPERAR NESTE LINDO CANTINHO.
http://sandrarandrade7.blogspot.com/
FICAREI MUITO FELIZ COM A SUA CHEGADA.
SANDRA

A MINHA ALDEIA

" Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver. "
Alberto Caeiro, em "O Guardador de Rebanhos"